DAO DE JING XXV
Janeiro 23rd, 2012 § 1 Comentário
Veja artigo relacionado ao capítulo 25 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/01/23/a-lembranca-do-retorno/
A LEMBRANÇA DO RETORNO
Janeiro 23rd, 2012 § 6 Comentários
A manhã, a noite O lugar aonde vou É onde estou, sem me notar foto-haicai: Michela Brígida
Uma história sulfi a respeito do esquecimento me faz refletir a respeito da minha trajetória nas artes corporais chinesas.
Em essência, ela fala da importância do retorno. Conta a história de um rei que mandou seus três filhos em viagem para conquistar as regiões mais distantes de seu reinado, para que depois regressassem e governassem seu reino.
Aconteceu que, com muitas dificuldades pelo caminho, tão longa e demorada foi a viagem, que ao chegarem naquelas regiões, eles esqueceram o motivo pelo qual estavam lá. E que teriam que retornar.
O rei então decidiu lembrá-los de episódios já vividos quando os príncipes ainda estavam em seu reinado. Enviou uma fragrância para o primeiro, um sabor para o outro e o som de uma música para o terceiro. Por meio dessas sensações, eles se lembraram, conquistaram o reino e retornaram.
Assim como os príncipes da história, eu também já me esqueci e retornei, principalmente no que diz respeito ao meu trabalho.
Eu tinha uma motivação muito idealista quando resolvi me dedicar exclusivamente às artes corporais chinesas. Era muito entusiasmada, acreditava que as práticas poderiam ajudar as pessoas a viver melhor, resolvendo seus problemas de saúde.
Então me ocupei em divulgar as práticas. Criei a Associação Vida em Harmonia, abri a escola de práticas chinesas Via 5, publiquei material didático em livros e vídeos. Também divulgava as práticas na mídia escrita e televisiva.
Com a quantidade de trabalho que tinha, fui me esquecendo das minhas motivações iniciais. Ficava às voltas com problemas gerados devido à existência de toda aquela estrutura montada. Vivi situações de conflito e disputa de poder que me desviavam do espírito de auto conhecimento das práticas.
Toda essa vivência foi válida mas, sabendo que as coisas devem ser largadas na hora certa, comecei a mudar. Há três anos, fechei a Associação e encerrei a Escola.
Meu prazer retornou, pois agora tenho uma visão mais justa das práticas. Continuo acreditando que elas podem gerar mudanças importantes nas pessoas, mas agora de uma forma mais realista.
Eu também retornei. Voltei para a simplicidade inicial. Porém, com uma consciência maior devido a toda aquela vivência adquirida.
O retorno é o movimento do Dao. Por isso é preciso saber retornar à origem.
É o que diz o capítulo 25 do Dao Dejing: “o imenso conduz ao não-ser. O não-ser leva ao longínquo. O longínquo retorna à origem”.
Nas práticas corporais chinesas, treinamos esse retorno: começamos e finalizamos uma prática numa mesma posição, em um mesmo local específico no espaço, fechando um ciclo.
Os movimentos são encadeados, e podem ter deslocamentos de passos para frente, para trás, para a esquerda ou para a direita. Mas é importante que, ao finalizarmos uma prática, retornemos à mesma posição onde ela se iniciou.
Ao retornar, percebemos que não voltamos os mesmos. Estamos em um estado energético diferente, enriquecido pela prática.
É importante ter a consciência de que isso acontece, permanecendo imóvel durante alguns segundos para perceber-se nesse retorno. Atentar a ele faz com que estejamos mais presentes.
Retornar à origem é ir longe, como diz o Dao Dejing. Voltamos ao nosso estado original, porém em um nível superior. Caminhamos em uma espiral ascendente e, ao terminarmos um ciclo, “pulamos de órbita”, alterando a nossa qualidade energética, como em um salto quântico.
Ir longe, numa prática corporal, é ter constância e duração no tempo. Os mestres dizem que isso é requisito essencial para se adquirir Gong Fu, palavra que traduzida quer dizer nível de excelência.
De acordo com o tempo dedicado a uma prática, de forma regular, temos resultados diferentes.
Em três meses, sentimos uma melhora nos objetivos a que uma prática se propõe. É o tempo para se memorizar os exercícios, mas ainda sem entendimento satisfatório.
Em um ano, há uma pequena incorporação de resultados. Já existe aí um entendimento, mas que ainda não é consciente.
Em três anos, acontece uma mudança energética no corpo, que fica mais “vivo”. A prática é consciente e de qualidade, mas ainda não se incorporou, ou seja, não é natural.
E em nove anos, há um salto de qualidade, uma alteração da consciência. É quando a essência da prática já faz parte da vida. Nove anos praticando, portanto, é uma constância que vai longe e retorna à origem, como diz o poema.
O capítulo 25 também nos mostra a importância do ser humano. Ele nasce da Terra e segue as leis da Terra: tem um corpo físico denso e finito, que precisa ser alimentado e sofre as leis da gravidade.
Ao seguimos as leis da Terra, transcendemos e podemos, junto a ela, seguir as leis do Céu, que são as quatro estações e a alternância entre a luz e escuridão. O Céu segue o Dao. Então, junto ao Céu, também seguimos o Dao, que nada mais é do que ser natural.
É um encadeamento. Se a pessoa não segue as leis da Terra, não pode seguir as leis do Céu e nem do Dao.
Seguir as leis do Céu é, para os chineses, cultivar o xing*: a consciência. E seguir as leis da terra é cultivar o ming*: a vida.
As artes corporais cultivam o ming, que é a nossa existência na Terra, o estar no mundo. Esse cultivo da vida é entendido em uma dimensão horizontal, sendo fundamental para o cultivo do xing, que é nosso Ser, a consciência que permite a união com o Céu, numa dimensão vertical.
Da miríade de seres entre o Céu e a Terra, o ser humano é o que tem a possibilidade ou está pronto para a transcendência. Pode ser um mediador entre Céu e Terra.
O Dao Dejing nos sugere que, na turbidez e finitude do nosso corpo, existe algo completo e integro, que podemos dar o nome de Dao.
Nesse corpo finito e turvo existe um corpo diamantino, na linguagem da Alquimia. Algo que não morre, é completo em si e está ligado ao Céu.
Por isso este texto clássico indica que o ser humano que treina o retorno é um dos “quatro grandes” do universo.
“Por isso o Dao é grande, o Céu é grande, a Terra é grande, e o verdadeiro Homem também é grande”, como diz a poesia.
Veja a tradução livre do capítulo 24 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/01/23/dao-de-jing-xxv/
* Para mais informações a respeito do cultivo de xing/ming, leiam o artigo “Constância por um fio, na página: https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2011/11/01/%E2%80%9Cconstancia-por-um-fio%E2%80%9D/
DAO DE JING XXIV
Janeiro 14th, 2012 § 2 Comentários
Veja artigo relacionado ao capítulo 24 do Dao De Jing clicando aqui:
https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/01/14/pisando-no-proprio-pe/
PISANDO NO PRÓPRIO PÉ
Janeiro 14th, 2012 § 4 Comentários
sem sobre saltos, com centro: tudo tem sentido foto-haicai: Michela Brígida
As mulheres da minha família não amarraram os pés. Meu avô era considerado louco pra época. Bem esclarecido, lia o I-Jing e fazia as filhas estudarem. Com o auxílio dele, minha mãe se tornou professora de matemática por volta de 1920.
Mas a sogra da minha prima Nanci teve os pés amarrados na infância. A prática de deformar os membros inferiores com bandagens muito apertadas aconteceu na China durante a dinastia Song, no início do século X.
Geralmente amarravam os pés das meninas quando elas tinham entre quatro e sete anos. Os ossos dos dedos eram forçados para se dobrarem por debaixo da sola dos pés. Em alguns casos, aconteciam fraturas e até a perda de artelhos.
Minha prima me disse que essa história começou em uma época em que os imperadores tinham muitas concubinas, que competiam entre si para serem vistas e assim conseguirem mais privilégios. Uma delas teve a ideia de enfaixar os pés em formato de meia lua (como se fosse uma sapatilha de ponta) para dançar em cima de uma flor de lótus. Aquilo ficou tão bonito, que chamou a atenção do imperador a ponto dele a tomar como a favorita.
As outras concubinas começaram então a enfaixar os pés também, até que esse costume se espalhou para além da corte e virou uma moda entre as chinesas em geral.
E como todas as modas tendem ao exagero, as pessoas foram diminuindo cada vez mais o tamanho dos pés. Começavam a enfaixá-los desde cedo, na infância, quando os ossos são mais flexíveis, e tentavam deixar os pés das meninas com 10 centímetros no máximo. Durante quase mil anos, predominou a crença de que somente as mulheres que tivessem pés pequenos conseguiriam um bom casamento. Esses pés deformados eram chamados de “pés de lótus”.
Inusitadamente, vemos uma semelhança entre o formato dos pés de lótus com o dos atuais sapatos de salto alto. No enfaixamento, o calcanhar das meninas era forçado pra frente para aumentar o arco e diminuir o tamanho dos pés. Então ficava parecendo um salto mesmo. O dedão, que era o único artelho mantido no lugar, ficava semelhante a um bico fino.
É claro que isso limitava a mulher. Ela andava pouco e com passos pequenos. Minha prima disse que havia mulheres que não conseguiam sequer fazer as coisas em pé. Tinham que se ajoelhar ou sentar em banquinhos para fazer o serviço da casa e cuidar dos filhos. Elas tinham que balançar o corpo quando andavam e isso atraia os homens chineses na época.
Não entendo porque os pés pequenos das mulheres despertavam a libido dos homens na China antiga. Não entendo porque o salto alto desperta a libido dos homens de hoje. Não consigo entender também outros fetiches, como os seios grandes e a barriga de tanquinho, excessos que vão contra a natureza.
Sinto que as pessoas cometem exageros para serem notadas, assim como as concubinas de antigamente. Não satisfeitas consigo mesmas, comportam-se de forma bizarra ou por meio de modismos, tentando aparecer. Mas a ironia é que, justamente por quererem aparecer, não são vistas, como diz o capítulo 24 do Dao Dejing. Pois a pessoa, em sua essência, não é vista. Os excessos é que são, sim, notados.
Exagerar é sair do próprio centro, é “ficar na ponta do pé” com a energia em suspensão. Nessa condição, a pessoa fica leve embaixo e pesada em cima e anda como se estivesse caindo. O passo então fica “maior do que a perna”.
A qualidade dos nossos passos sobre a terra mostra a maneira como estamos no mundo. Nas artes corporais chinesas, os mestres dizem que todos os movimentos nascem nos pés, propagam-se pelas pernas, são controlados pela cintura, erguem-se pela coluna e manifestam-se nas mãos. E que, quando o movimento é desequilibrado, a causa deve ser encontrada nos pés.
O princípio que rege o movimento dos pés é o Cheio e o Vazio (xu/shi), que também pode ser entendido como Firme e Maleável.
Muitos interpretam equivocadamente esse princípio. Livros de práticas corporais chinesas afirmam que o pé seria “cheio” quando o peso do corpo incide sobre ele. E que o pé seria vazio quando não se tem peso. Mas o peso é resultante da gravidade, uma força que age de cima para baixo.
No princípio do Cheio e Vazio, não se trata do peso do corpo, mas da potência que vem da Terra, invisível aos nossos olhos, onipresente. Essa força é ascendente e faz com que todos os seres vivos se elevem para o alto, como podemos observar no vigor com que as plantas crescem.
Quando nos alinhamos com essa força, ela penetra pelos pés e segue preenchendo o nosso corpo em direção ao Céu, tornando-o firme e estável.
O pé Cheio, portanto, é como um pilar ligando a Terra ao Céu, preenchido pela potência da Terra, de baixo para cima. E o pé vazio fica livre para fazer movimentos, de forma maleável e suave, sem perda de estabilidade, pois se ancora no pé firme. Quando se está em movimento, o cheio e o vazio se alternam como o yin/yang. O andar é um exemplo básico desse princípio em ação.
A forma mais apropriada de andar, segundo os mestres, é o “passo de elefante”. Se sentir que o terreno onde vai pisar não está firme, o elefante não dá o passo.
Saber distinguir o cheio e o vazio dos pés, deixa o andar mais estável e seguro. Quando o pé maleável percebe instabilidade, retrocede e busca terrenos firmes. É como conseguir andar na lama sem cair, dizem os mestres.
Quando existe uma troca com a potência da Terra, o andar fica sendo uma forma de interagir com a natureza.
Não se consegue a conexão com a Terra se nossos pés não estão no chão. Às vezes os pés estão fisicamente postos sobre o chão, mas estão esquecidos e a energia não chega até eles. Podemos ver que pessoas assim andam como se estivessem vagando, em suspenso.
Uma pessoa que não tem os pés no chão é iludida sobre si mesmo e instável. Define objetivos e ações que caem no excesso e desperdício, seja de energia, de tempo ou de recursos materiais. E quando não se tem controle sobre o resultado de suas ações, tudo pode acontecer.
Por isso o Dao Dejing diz a respeito: “são como sobras de comida, coisas supérfluas que causam desgosto”. Uma pessoa que não tem os pés no chão acaba usando muito mais força do que precisaria se estivesse centrada.
Ficar na ponta dos pés é uma metáfora que os chineses usam com aqueles que, ansiosos, divagam sobre coisas que ainda não aconteceram.
Na ponta dos pés estão as pessoas que querem ser o que não são. Por isso ficam sempre “se achando” ou procurando aparecer.
Não precisamos querer agradar o outro. Precisamos nos integrar à natureza. As práticas corporais nos proporcionam isso. Praticamos o Cheio e o Vazio de forma a nos alinharmos com a energia que sobe da Terra ao Céu.
No meu dia-a-dia, procuro me ligar a atividades que me auxiliem a dominar a arte do Cheio e Vazio, mantendo, sempre, os pés no chão.
Veja a tradução livre do capítulo 24 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/01/14/dao-de-jing-xxiv/
Para saber mais informações a respeito dos pés de lótus, há um excelente artigo no site: http://www.clinicaecirurgiadope.com.br/index.php/historia/



