DAO DE JING XXVIII

Fevereiro 25th, 2012 § Deixe um Comentário

Veja artigo relacionado ao capítulo 28 do Dao De Jing clicando aqui: https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/25/mestre-simples-mente/


MESTRE, SIMPLES MENTE

Fevereiro 25th, 2012 § 4 Comentários

Com seguir
Ser constante
Um instante a cada momento

foto-haicai: Michela Brígida

Comecei pelo mais difícil na minha vida com as práticas chinesas. Aprendi e ensinei artes sofisticadas como o Taiji Quan, Espada Taiji e Bagua Quan. Até que minhas reflexões começaram a me guiar para exercícios bem mais simples da Medicina Tradicional Chinesa.

Eu estava insatisfeita com os métodos de ensino das artes corporais chinesas no Brasil quando resolvi me dedicar a essa área. Via que eram praticadas, ou como algo exótico, ou com base na imitação. Conseguia perceber isso por ter as duas culturas dentro de mim, ou seja, por ser chinesa e ter crescido aqui.

Além disso, na década de 70, com a abertura política da China, pude fazer algumas viagens para o meu país de origem. Em uma dessas ocasiões, no ano de 1995, aconteceu algo que me motivou nessa passagem do complexo para o mais simples.

Eu tinha levado um grupo de praticantes de Taiji Quan para visitar a Montanha Wudang, na província de Hubei, à noroeste da China. Essa montanha é muito importante para os praticantes de Taiji Quan por ter sido o local onde o monge Zhang Sanfeng viveu como eremita até criar essa arte marcial.

Nosso grupo tinha ido visitar a Escola Tradicional de Artes Marciais de Wudang (Wudang Taoist Traditional Gong Fu Academy) que, naquela época, formava jovens chineses selecionados de todo país.

No pátio da escola, os alunos treinavam exercícios da arte guerreira (Wu Shu) Wudang sob o olhar atento de seu professor, um monge daoísta vestido com uma túnica típica e de coque no alto da cabeça.

Eu apresentei nosso grupo, dizendo que éramos praticantes de Taiji Quan no Brasil, e depois perguntei se ele ensinava essa arte em Wudang. “Não”, ele me respondeu. E com toda a sua sinceridade, continuou: “Ainda não tenho condições, porque o Taiji Quan é um Qigong de alto nível”.

Foi importante ter ouvido isso. Aquele professor chinês, cuja simples presença impunha respeito, ainda não ousava ensinar o Taiji Quan. A gente, por ignorância, ainda não entendia o valor dessa arte, e seguia fazendo os movimentos sem essa consciência.

Então ficou mais evidente pra mim a necessidade que temos aqui no Brasil de nos aprofundar e entender mais do pensamento chinês. Isso me fez enxergar, com mais clareza, algo que já sabia no meu íntimo: não se pode tratar uma arte profunda de maneira superficial.

Na China, os orientais tem suas vidas cotidianas permeadas pela filosofia da Medicina Tradicional Chinesa, pelos fundamentos do yin/yang. As pessoas são mais introspectivas e, nesse sentido, tem um conhecimento mais profundo do mundo energético interno.

No Ocidente, pela falta dessa base cultural, os movimentos ficam mais complexos. Devido à forma como são ensinados, tornam-se complicados de aprender. Aqui é preciso preparar o terreno antes de semear uma semente que vem de terras tão distantes.

Além disso, o brasileiro é muito extrovertido, voltado para fora. Antes de tudo, ele precisa conhecer mais de seu mundo interior.

Com base nessas reflexões, conclui que o caminho para o aprendizado das práticas corporais chinesas no Ocidente deve ser feito de fora para dentro. Para aprender a respeito da força vital interna, por exemplo, é preciso que ela seja primeiro sentida ao nível dos músculos, tendões e ossos, em exercícios mais específicos. O Liangong em 18 Terapias, uma prática corporal da área da ortopedia da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) permite fazer esse trabalho com objetividade.

Obtendo a sensação no corpo físico, a pessoa pode reconhecer a força interior. E a partir dessa percepção, poderá depois fazer qualquer prática chinesa, inclusive as mais complexas, obtendo resultados benéficos. Porque já estará conseguindo sentir a força interna em seu centro com mais facilidade.

Por isso, desde a minha primeira viagem para a China, comecei a direcionar o meu trabalho para as artes corporais terapêuticas da MTC (como as percussões e massagens corporais, as 18 Terapias, o Xianggong/Treinamento Perfumado, entre outras).

Por serem mais simples na execução e mais objetivas para se conseguir resultados específicos, elas são mais adequadas para auxiliar no entendimento do pensamento abrangente chinês.

O simples nos conduz ao conhecimento. Tanto nas práticas corporais, quanto na vida. Não adianta querer dar voos muito altos sem ter feito as coisas simples primeiro. E constantemente.

Assim entendo o 28º capítulo do Dao Dejing, quando nos mostra que “o grande carpinteiro pouco talha a madeira bruta”. Vejo que o esforço constante para se chegar à simplicidade é uma virtude que podemos reconhecer em um grande artista ou em um verdadeiro líder. As três primeiras partes do poema enfatizam a importância de ser simples, de retornar a ser criança, ao Supremo Vazio e à simplicidade da madeira bruta.

O autor nos explica que, para se chegar a essa simplicidade, precisamos ter a prática de conhecer e resguardar o yin e o yang, em seus vários aspectos (a impetuosidade do macho e a receptividade da fêmea, o branco e o escuro dentro de si, a glória e a humildade).

Se a gente tiver humildade para executar o simples, simplesmente, em passos simples, e se a gente tiver constância nisso, vai penetrar nos mistérios do yin/yang. Vai nos ser dado um conhecimento profundo. Porque através de um movimento simples, pode-se chegar a ter o controle de todo o nosso corpo.

O simples é raiz do complexo. Quanto mais profundamente se chega, mais simples vemos que as coisas são. E quanto mais superficial, mais complicado parece que é.

Fazer o simples de forma profunda é resultado de um longo esforço, como pude constatar com minha própria vida. Mas depois, até mesmo as coisas mais complexas podem ser realizadas de forma natural. E simples.

Veja a tradução livre do capítulo 28 do Dao De Jing clicando aqui: https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/25/dao-de-jing-xxviii/

Veja o site da Wudang Daoist Traditional Internal Kung Fu Academy aqui: http://www.wudanggongfu.com/

Veja as práticas da MTC divulgadas por Maria Lucia Lee: http://www.youtube.com/user/Mansan49

Veja auto massagem matinal: http://www.youtube.com/watch?v=6QIPguD-V-g

PALESTRA ABERTA COM MARIA LUCIA LEE EM SJC

Fevereiro 23rd, 2012 § Deixe um Comentário

LANÇAMENTO DO CURSO LIVRE DE FORMAÇÃO DE LIANGONG EM 18 TERAPIAS ANTERIOR E POSTERIOR

Apresentação da origem, desenvolvimento e objetivos do Liangong em 18 Terapias.

Liangong em 18 Terapias é um método corporal desenvolvido e divulgado na década de 70 pelo Dr. Zhuang Yuanming, médico ortopedista de Shangai, China.

Por seu trabalho, o Dr. Zhuang recebeu do governo chinês o prêmio de “Progresso Científico”. Com isso, as 18 Terapias foram amplamente divulgadas para a população chinesa devido aos benefícios resultantes de sua prática.

TEMA: ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DAS 18 TERAPIAS

DIA 03 DE MARÇO DE 2012
Horário: 9h às 11h
Local: Hotel Mercure
Av. Dr. Jorge Zarur, 81, Jd. Apollo – S.J.Campos -SP

CURSO LIVRE DE FORMAÇÃO DE LIANGONG EM 18 TERAPIAS

Período: Março à Outubro de 2012
Carga horária total: 64 horas

Maiores informações e inscrições:
www.viacincosjc.com.br

(12) 3033-4299 / 7819-6672

GUERREIRO DO SÉCULO XXI

Fevereiro 16th, 2012 § 8 Comentários

 
 
Vivo
A colher, a guardar ser
Vivo
 
foto-haicai: Michela Brígida

“Viver é perigoso, mas necessário”, disse o brasileiro Guimarães Rosa. Para os chineses, viver é uma eterna luta do yin/yang, também necessária. A vida é uma batalha. E o homem comum pode ser um guerreiro do nosso século.

Grandes guerreiros da história chinesa eram heróis que se destacavam por defender o povo de injustiças e invasões. Muitas vezes, esses cavaleiros andantes eram anônimos ou então conhecidos por diferentes nomes, cada um atribuído conforme uma determinada situação ou local. Eram temidos pelos opressores e amados pelo povo. Uma vez restaurada a paz, prosseguiam em suas jornadas, sem deixar rastros, apenas notícias de seus feitos.

Os inimigos dos guerreiros de antigamente eram visíveis na época dos bárbaros, invasores ou tiranos. Hoje a luta do guerreiro do século XXI acontece em outro nível. Mas desde o tempo em que era preciso ser forte muscularmente para conseguir vestir uma armadura, a luta do guerreiro sempre foi a de encontrar uma grande paz.

Paradoxalmente, as palavras wu shu (artes guerreiras) significam chegar à grande paz por meio da luta. Wu, que tem o significado de guerreiro, é composto pelos ideogramas “parar” e “arma”. E shu quer dizer “arte”. A arte guerreira é, portanto, a estratégia e o poder pessoal para se vencer uma batalha sem se usar armas. Ou fazendo com que o oponente deponha as dele.

Atingir a grande paz é compreender a luta do yin/yang, que não é um combate. É uma interação de opostos.

Foi o que enxergou o monge taoísta Zhang Sanfeng no século XII. A lenda diz que ele era um desses grandes guerreiros que viajava por toda a China e que decidiu, aos 67 anos, recolher-se na montanha Wudan para meditar.

Estava na quietude da montanha, em um crepúsculo, quando uma luta entre uma serpente e um pássaro o despertou de sua meditação. Ele viu a luta se transformando numa dança: na serpente, a firmeza do bote nascia da maleabilidade em se esquivar das investidas do pássaro; a força interna das bicadas da ave, por sua vez, nascia de rodopios para evitar o bote do réptil.

Ao final, ninguém saiu vencedor. A serpente deslizou para as pedras e o pássaro voou para o céu. Mas a visão daquela cena fez com que Zhang Sanfeng criasse o Taiji Quan, uma luta sem luta.

O princípio básico é a formação de um taiji (o símbolo da união do yin/yang) com a força do oponente. Se um dá um passo para a frente (avançando, por exemplo), o outro recua no movimento inverso e complementar. Porque se os dois avançarem ao mesmo tempo, configura-se um embate.

Com o domínio de si e de seu centro, um lutador de Taiji Quan acolhe a força do golpe que vem em sua direção e a desagrega, desmanchando o golpe. Esse é o grande segredo. Não combater o adversário, mas sim anular a agressividade dele, fazendo-a cair no vazio. O objetivo é transformar e se harmonizar com o oponente, tornando-se, dessa forma, invencível, pois não há luta. Consequentemente, não há vencedores e nem vencidos. Os dois ganham.

Abrangendo tudo, o lutador acolhe todas as forças e se torna “um” com essas forças. Olha para elas com amor. É como diz o capítulo XXVII do Dao Dejing: “salva os homens sem rejeitar ninguém. Sempre bom, resgata as coisas sem nada descartar”.

Essa harmonia gera um desenrolar de movimentos circulares, que não se rompe nem se desagrega. É como o “bom fechamento”, que “não tem trancas e não é possível abrir”, de que fala o Dao Dejing também nesse capítulo XXVII. Forma-se então uma zona de proteção ao redor do corpo que golpes externos não conseguem penetrar.

O Taiji Quan é considerada uma arte guerreira da escola interna (neijia, em chinês), que dedica-se ao treinamento de compreender e desenvolver a força interna dos praticantes. Não se treina a agressividade e nem se privilegia a força física. O mais importante é vencer a si mesmo e cultivar a intenção do coração.

A escola neijia se contrapõe à escola waijia (externa), cuja arte mais conhecida é o Gong Fu Shaolin, desenvolvido pelo monge budista Bodhidharma no final do século VI. O Gong Fu Shaolin, comparado ao Taiji Quan, é um treinamento mais externo, com foco na luta contra um adversário exterior. Acontece um combate mesmo, em que um vence e o outro é vencido.

No meu entendimento, não é por um acaso que o Taiji Quan surgiu séculos depois da criação do Gong Fu Shaolin. O Taiji Quan foi desenvolvido numa época em que já era necessário um “exorcismo” para males não visíveis. E os inimigos não eram mais somente os bárbaros com suas armas materiais: eram também invisíveis e sutis, como os maus pensamentos e as neuroses que começavam a se espreitar em locais escuros e internos do ser humano contemporâneo.

Nesse sentido, o Taiji Quan é a arte marcial adequada para as lutas dos dias de hoje, pois um guerreiro do século XXI, assim como um bom lutador de Taiji Quan, não deve ter a preocupação de vencer um adversário. Ele deve, sim, vencer o próprio ego, mantendo o coração vazio de raiva e de outras forças negativas. Não deve enxergar o oponente como um inimigo, mas sim  como alguém a quem deve compreender, sem julgar, para depois interagir com ele (porque ao julgá-lo, já terá perdido a luta).

Um guerreiro do século XXI não rejeita aquele que não é bom, pois sabe que o que não é bom pode ser matéria-prima para seu aperfeiçoamento. Assim sendo, uma pessoa ou situação que, aparentemente é adversa, pode desenvolver habilidades na vida do guerreiro do século XXI que ele não conseguiria desenvolver de outra maneira. A paciência ou o domínio da raiva, por exemplo. Uma pessoa pode aprender muito mais (a se melhorar, por exemplo) com uma situação adversa do que com uma vida de “mar de rosas”. Assim entendo a citação do poema 27 do Dao Dejing: “aquele que é bom é mestre para aquele que não é bondoso. E o que não é bom é matéria prima daquele que é”.

Sem combater a ninguém, com o coração tranquilo, o guerreiro do século XXI pode superar os perigos e os oponentes. Essa é a essência da luta que leva à não luta, que leva à grande paz.

Como diz o poeta Laozi, a isso se chama “herdar a luz”.

Veja a tradução livre do capítulo 27 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/16/dao-de-jing-xxvii/


DAO DE JING XXVII

Fevereiro 16th, 2012 § Deixe um Comentário

 

Veja artigo relacionado ao capítulo 27 do Dao De Jing clicando aqui:

http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/16/guerreiro-do-seculo-xxi/

CURSO DE FORMAÇÃO

Fevereiro 3rd, 2012 § Deixe um Comentário

Para os que sempre me perguntam quando vou oferecer um curso ou para os que tem interesse em aprender as artes corporais chinesas, uma informação:
 
Eu e minhas sócias de São José dos Campos realizaremos um curso de formação de Liangong em 18 Terapias a partir do dia 10 de março.
 
Vejam as informações abaixo.

O Curso de Formação elaborado pela Via Cinco SJC atende aos critérios estabelecidos pelo sistema de avaliação da Associação de Liangong em 18 Terapias de Shangai, R.P. China e visa formar instrutores dentro dos padrões internacionais exigidos.

Período: Março à Outubro de 2012
Carga horária total: 64 horas

Outras informações e inscrições:
www.viacincosjc.com.br

(12) 3033-4299 / 7819-6672

DAO DE JING XXVI

Fevereiro 1st, 2012 § 4 Comentários

Veja artigo relacionado ao capítulo 26 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/01/sustentavel-leveza-do-ser/

SUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

Fevereiro 1st, 2012 § 6 Comentários

Leve o corpo
Com o peso
Da consciência
 
 
foto-haicai: Michela Brígida

Foi um choque. Semelhante a uma pancada dada por um mestre tradicional do Zen Budismo para acordar um aluno sonolento na prática da meditação.

Eu tinha 28 anos. Era formada em física pela USP e bem sucedida profissionalmente na carreira de analista de sistemas. Tinha muitos diplomas e achava, enfim, que sabia de muita coisa.

Mas essa ilusão se desfez quando fiz a minha primeira aula de Taiji Quan com o mestre Lim, um dos primeiros professores dessa arte no Brasil. Foi aí que me dei conta de um corpo esquecido, alheio aos meus comandos em movimentos que exigiam muita coordenação corporal entre os pés e as mãos. Se eu não podia sequer dominar o meu corpo, pensei, como poderia controlar a minha vida?

O choque me despertou.

Essa descoberta que “senti na pele” é, na verdade, um conhecimento muito antigo. A interdependência entre corpo, emoções e mente está nos fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa.

Um bom exemplo ligado às artes corporais é o Yi Jin Jing, uma das mais antigas práticas terapêuticas para o corpo, que foi criada para auxiliar no desenvolvimento espiritual.

O Yi Jin Jing foi desenvolvido em 526 d.C. por um monge indiano budista conhecido pelo nome de Bodhidarma que, a convite do imperador Liang, foi ensinar o Budismo Chan (Zen) no templo Shaolin, na província de Henan, região central da China.

Naquela época, já se praticava o budismo na região e em outros lugares na China. Mas, por acreditarem que apenas por meio do espírito se iluminariam, os monges dedicavam-se, na maior parte do tempo, aos treinamentos de meditação. É claro que, por ignorarem os cuidados necessários para com seus corpos, eles ficavam debilitados e sem vitalidade.

Como um bom professor, Bodhidarma percebeu o equívoco: sem um corpo físico saudável, por mais que meditassem, o monges não chegariam à iluminação. Diz a lenda que ele ficou meditando durante anos para desenvolver uma prática que conduzisse adequadamente os monges.

Daí surgiu o Yi Jin Jing, que quer dizer Transformação dos Músculos e Tendões.

Com os corpos mais vitalizados, os monges do templo Shaolin perceberam uma sensível melhora nos resultados da meditação. E mais tarde, com os treinamentos, desenvolveram um estilo de artes marciais conhecido como Gong Fu Shaolin, cuja fama permanece até hoje espalhada pelo mundo.

Considerada umas das mais importantes artes corporais para transformação dos músculos e tendões (de doentes para saudáveis), o Yi Jin Jing inspirou técnicas corporais modernas de fortalecimento do corpo como o Liangong em 18 Terapias, do dr. Zhuang Yuanming, muito difundida aqui no Brasil.

Mas até hoje, há quem não se atente ao fato de que é preciso ter um corpo saudável e com vitalidade para desenvolver o espírito.

Para os chineses, o corpo físico não se resume à sua estrutura anatômica, como acontece no Ocidente, onde a anatomia é mais desenvolvida, mesmo. Na China, o foco está no conhecimento energético do corpo. O fundamento desse saber é o processo alquímico realizado pelos três tesouros no ser humano*: a Essência (Jing), o Sopro (Qi) e o Espírito (Sheng),

A Essência é como uma seiva vital e localiza-se na parte baixa do corpo (região do baixo ventre). Ela é composta pela Essência Inata e pela Essência Adquirida, que têm funções diferentes.

A Essência Inata é herdada do pai, da mãe, do Céu e da Terra no ato da concepção. Sua função é gerar e governar as transformações do corpo físico, como o crescimento e o envelhecimento, por exemplo. As Essências Adquiridas são as que vem dos alimentos e do ar que respiramos. Elas mantêm nosso corpo após o nascimento.

Chamada de Jing pelos chineses, a Essência pode se manifestar em energia sexual e gerar uma nova vida, em um movimento para fora, em direção ao exterior. Se o movimento é de retorno, para o interior, o Jing se transmuta em Sopro ou, em chinês: Qi

O Qi é o ar vital de natureza volátil e etérea que preenche o nosso corpo e promove as funções dos órgãos. Ele move-se continuamente, subindo, descendo, expandindo-se e contraindo-se em torno de um centro. Penetra em todas as partes do corpo, integrando-o. Ao atingir sua plenitude, ascende e se transforma em Espírito.

O Espírito, ou Shen, é o Céu dentro da gente. Leve e puro como a natureza celeste, governa o corpo, conduzindo os Sopros, que por sua vez conduzem as atividades humanas. Pertence ao plano do absoluto e transcende a dualidade do yin/yang. O Espírito mora em nosso Coração.

É pela presença do Espírito ou Shen que a Essência ou Jing é direcionada para se transformar em Sopro ou Qi que, por sua vez, transmuta-se em Espírito (Shen), dando novo início a mais um ciclo de transformações.  Portanto, o Qi é um estado intermediário entre o Jing e o Shen.

No nosso corpo, de forma geral, as funções dos órgãos localizados abaixo do diafragma (Baço, Rim e Fígado) são os responsáveis por produzir e transformar a Essência (inata e adquirida) para fazê-la chegar às regiões superiores, em um movimento ascendente, de natureza yang. Na região superior, os órgãos acima do diafragma (Coração e Pulmão) são os responsáveis por receber essa essência pura que ascendeu, condensá-la com o ar celeste respirado, e distribuí-la a todos os órgãos e vísceras abaixo deles, em um movimento descendente, de natureza ying.

Por isso entendemos o processo alquímico dos três tesouros como uma alternância constante entre o pesado e o leve, como acontece com o yin/yang. O pesado (yin) é a Essência, que se dissolve por meio de um movimento ascendente, de natureza yang. O leve (yang) é o Espírito, que se condensa através de um movimento descendente, de natureza yin.

Essa alquimia interior esboçada acima nos leva a constatar que, se eu não tenho vitalidade (não me alimentando ou repousando bem, por exemplo) não consigo ter energia para um movimento ascendente, que transforma a Essência em Espírito. Sem animação do Sopro ou do Espírito, o corpo fica mais pesado ainda. E o Espírito, sem a sua raiz (que é a Essência), se agita e se dispersa. Não consegue se fixar, ou (menos ainda) meditar.

Assim entendo a mensagem trazida pelo capítulo 26 do Dao Dejing: “o leve demais perde a raiz. O agitado falha em seu governo”.

Também podemos praticar o equilíbrio entre o leve e o pesado nas coisas do dia-a-dia. Nas relações afetivas, por exemplo; vejo a juventude com uma atitude extremada em relação ao sexo, confundindo liberdade com leviandade. A palavra leviandade vem do latim “levis”, que quer dizer “de pouco peso”, “leve”. Aplicando essa etimologia ao caráter de uma pessoa, ser leviano é não se aprofundar, ficando na superficialidade apenas. Assim acontece quando se evita criar vínculos mais aprofundados nas relações. É interessante saber ao menos que, ao fazer sexo casual, está se consumindo Jing, matéria-prima do Espírito.

A verdadeira liberdade não parte do corpo. Não estamos mais na época dos hippies, que fizeram a revolução sexual. Hoje a revolução vem do Espírito. Por isso precisamos ter uma boa condução de nossa Essência.

Outro exemplo da falta de equilíbrio entre o pesado e o leve é quando a pessoa tem posses ou conhecimentos, mas os retêm apenas para si, de forma mesquinha. Sem movimentar seus recursos, não dá fluxo às oportunidades que a vida pode trazer a todos. Os recursos transforma-se nesse caso em um peso que impede a leveza do Espírito.

“Por isso o verdadeiro Homem não se distancia do leve e do pesado em sua marcha diária”, como também afirma o Dao Dejing.

O caminho do meio é ser natural. Se a pessoa está num extremo, encontra a oposição do oposto. Se está no meio, os dois são complementares. Nem muito leve, sem raiz, ou tão pesado, sem florescer.

Veja a tradução livre do capítulo 26 do Dao De Jing clicando aqui:

http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/01/dao-de-jing-xxvi/


* Para saber mais a respeito de Jing, Qi e Shen, veja o artigo “Os três tesouros do homem”:https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/?s=Tr%C3%AAs+tesouros

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