SUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

Fevereiro 1st, 2012 § 6 Comentários

Leve o corpo
Com o peso
Da consciência
 
 
foto-haicai: Michela Brígida

Foi um choque. Semelhante a uma pancada dada por um mestre tradicional do Zen Budismo para acordar um aluno sonolento na prática da meditação.

Eu tinha 28 anos. Era formada em física pela USP e bem sucedida profissionalmente na carreira de analista de sistemas. Tinha muitos diplomas e achava, enfim, que sabia de muita coisa.

Mas essa ilusão se desfez quando fiz a minha primeira aula de Taiji Quan com o mestre Lim, um dos primeiros professores dessa arte no Brasil. Foi aí que me dei conta de um corpo esquecido, alheio aos meus comandos em movimentos que exigiam muita coordenação corporal entre os pés e as mãos. Se eu não podia sequer dominar o meu corpo, pensei, como poderia controlar a minha vida?

O choque me despertou.

Essa descoberta que “senti na pele” é, na verdade, um conhecimento muito antigo. A interdependência entre corpo, emoções e mente está nos fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa.

Um bom exemplo ligado às artes corporais é o Yi Jin Jing, uma das mais antigas práticas terapêuticas para o corpo, que foi criada para auxiliar no desenvolvimento espiritual.

O Yi Jin Jing foi desenvolvido em 526 d.C. por um monge indiano budista conhecido pelo nome de Bodhidarma que, a convite do imperador Liang, foi ensinar o Budismo Chan (Zen) no templo Shaolin, na província de Henan, região central da China.

Naquela época, já se praticava o budismo na região e em outros lugares na China. Mas, por acreditarem que apenas por meio do espírito se iluminariam, os monges dedicavam-se, na maior parte do tempo, aos treinamentos de meditação. É claro que, por ignorarem os cuidados necessários para com seus corpos, eles ficavam debilitados e sem vitalidade.

Como um bom professor, Bodhidarma percebeu o equívoco: sem um corpo físico saudável, por mais que meditassem, o monges não chegariam à iluminação. Diz a lenda que ele ficou meditando durante anos para desenvolver uma prática que conduzisse adequadamente os monges.

Daí surgiu o Yi Jin Jing, que quer dizer Transformação dos Músculos e Tendões.

Com os corpos mais vitalizados, os monges do templo Shaolin perceberam uma sensível melhora nos resultados da meditação. E mais tarde, com os treinamentos, desenvolveram um estilo de artes marciais conhecido como Gong Fu Shaolin, cuja fama permanece até hoje espalhada pelo mundo.

Considerada umas das mais importantes artes corporais para transformação dos músculos e tendões (de doentes para saudáveis), o Yi Jin Jing inspirou técnicas corporais modernas de fortalecimento do corpo como o Liangong em 18 Terapias, do dr. Zhuang Yuanming, muito difundida aqui no Brasil.

Mas até hoje, há quem não se atente ao fato de que é preciso ter um corpo saudável e com vitalidade para desenvolver o espírito.

Para os chineses, o corpo físico não se resume à sua estrutura anatômica, como acontece no Ocidente, onde a anatomia é mais desenvolvida, mesmo. Na China, o foco está no conhecimento energético do corpo. O fundamento desse saber é o processo alquímico realizado pelos três tesouros no ser humano*: a Essência (Jing), o Sopro (Qi) e o Espírito (Sheng),

A Essência é como uma seiva vital e localiza-se na parte baixa do corpo (região do baixo ventre). Ela é composta pela Essência Inata e pela Essência Adquirida, que têm funções diferentes.

A Essência Inata é herdada do pai, da mãe, do Céu e da Terra no ato da concepção. Sua função é gerar e governar as transformações do corpo físico, como o crescimento e o envelhecimento, por exemplo. As Essências Adquiridas são as que vem dos alimentos e do ar que respiramos. Elas mantêm nosso corpo após o nascimento.

Chamada de Jing pelos chineses, a Essência pode se manifestar em energia sexual e gerar uma nova vida, em um movimento para fora, em direção ao exterior. Se o movimento é de retorno, para o interior, o Jing se transmuta em Sopro ou, em chinês: Qi

O Qi é o ar vital de natureza volátil e etérea que preenche o nosso corpo e promove as funções dos órgãos. Ele move-se continuamente, subindo, descendo, expandindo-se e contraindo-se em torno de um centro. Penetra em todas as partes do corpo, integrando-o. Ao atingir sua plenitude, ascende e se transforma em Espírito.

O Espírito, ou Shen, é o Céu dentro da gente. Leve e puro como a natureza celeste, governa o corpo, conduzindo os Sopros, que por sua vez conduzem as atividades humanas. Pertence ao plano do absoluto e transcende a dualidade do yin/yang. O Espírito mora em nosso Coração.

É pela presença do Espírito ou Shen que a Essência ou Jing é direcionada para se transformar em Sopro ou Qi que, por sua vez, transmuta-se em Espírito (Shen), dando novo início a mais um ciclo de transformações.  Portanto, o Qi é um estado intermediário entre o Jing e o Shen.

No nosso corpo, de forma geral, as funções dos órgãos localizados abaixo do diafragma (Baço, Rim e Fígado) são os responsáveis por produzir e transformar a Essência (inata e adquirida) para fazê-la chegar às regiões superiores, em um movimento ascendente, de natureza yang. Na região superior, os órgãos acima do diafragma (Coração e Pulmão) são os responsáveis por receber essa essência pura que ascendeu, condensá-la com o ar celeste respirado, e distribuí-la a todos os órgãos e vísceras abaixo deles, em um movimento descendente, de natureza ying.

Por isso entendemos o processo alquímico dos três tesouros como uma alternância constante entre o pesado e o leve, como acontece com o yin/yang. O pesado (yin) é a Essência, que se dissolve por meio de um movimento ascendente, de natureza yang. O leve (yang) é o Espírito, que se condensa através de um movimento descendente, de natureza yin.

Essa alquimia interior esboçada acima nos leva a constatar que, se eu não tenho vitalidade (não me alimentando ou repousando bem, por exemplo) não consigo ter energia para um movimento ascendente, que transforma a Essência em Espírito. Sem animação do Sopro ou do Espírito, o corpo fica mais pesado ainda. E o Espírito, sem a sua raiz (que é a Essência), se agita e se dispersa. Não consegue se fixar, ou (menos ainda) meditar.

Assim entendo a mensagem trazida pelo capítulo 26 do Dao Dejing: “o leve demais perde a raiz. O agitado falha em seu governo”.

Também podemos praticar o equilíbrio entre o leve e o pesado nas coisas do dia-a-dia. Nas relações afetivas, por exemplo; vejo a juventude com uma atitude extremada em relação ao sexo, confundindo liberdade com leviandade. A palavra leviandade vem do latim “levis”, que quer dizer “de pouco peso”, “leve”. Aplicando essa etimologia ao caráter de uma pessoa, ser leviano é não se aprofundar, ficando na superficialidade apenas. Assim acontece quando se evita criar vínculos mais aprofundados nas relações. É interessante saber ao menos que, ao fazer sexo casual, está se consumindo Jing, matéria-prima do Espírito.

A verdadeira liberdade não parte do corpo. Não estamos mais na época dos hippies, que fizeram a revolução sexual. Hoje a revolução vem do Espírito. Por isso precisamos ter uma boa condução de nossa Essência.

Outro exemplo da falta de equilíbrio entre o pesado e o leve é quando a pessoa tem posses ou conhecimentos, mas os retêm apenas para si, de forma mesquinha. Sem movimentar seus recursos, não dá fluxo às oportunidades que a vida pode trazer a todos. Os recursos transforma-se nesse caso em um peso que impede a leveza do Espírito.

“Por isso o verdadeiro Homem não se distancia do leve e do pesado em sua marcha diária”, como também afirma o Dao Dejing.

O caminho do meio é ser natural. Se a pessoa está num extremo, encontra a oposição do oposto. Se está no meio, os dois são complementares. Nem muito leve, sem raiz, ou tão pesado, sem florescer.

Veja a tradução livre do capítulo 26 do Dao De Jing clicando aqui:

http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/01/dao-de-jing-xxvi/


* Para saber mais a respeito de Jing, Qi e Shen, veja o artigo “Os três tesouros do homem”:https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/?s=Tr%C3%AAs+tesouros

§ 6 Responses to SUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

  • Maria do Carmo Ferraz diz:

    Lucia, hoje as pessoas são pesadas tambem na aparencia, vc vale pelo que vc tem.e por aquela aparencia pesada muscular, é muito superficial.Quanto mais eu tenho mais poder e só assim a pessoa se sente valorizada.É uma pena.

  • André Miglio Porto diz:

    Muito bom acompanhar suas palavras e atitudes de encontro a sustentável leveza do ser.

    No princípio , o meio
    vivendo o presente!

    Obrigado por este.

  • Olá, Lucia. Quando vi o título, logo me animei, pois o livro “A insustentável leveza do ser” é um dos que mais admiro. E de fato, o livro trata dessa sensação insustentável, agoniante, infelicitante, de se sentir desconectado de tudo ou todos. É certamente tão ruim quanto se sentir preso, acorrentado, seja lá ao que for. Suas palavras novamente foram lindas e profundas. Obrigada novamente pelo belo texto. Minha família acaba de perder uma pessoa muito querida e próxima, ainda jovem, aos 49 anos, provavelmente em função de uma saúde debilitada, resultado de hábitos mentais, alimentícios e físicos inadequados. Sinto uma tristeza muito grande nestes momentos, pois são vidas que poderiam produzir ainda muito mais. Estou em busca desse caminho do equilíbrio completo e tenho incentivado bastante as pessoas próximas de mim para também começarem essa busca. Oxalá possamos encontrar este equilíbrio que você comenta aqui.

  • Maria Lucia Lee diz:

    Muitos comentários de qualidade em relação aos textos sobre os poemas do Dao Dejing. Esta é a missão dos poemas: ao longo dos tempos lembrar nos do que é o natural. Grata à todos pelo retorno e por enriquecer com suas reflexões.

    • Mônica Sucupira diz:

      Lúcia que delícia ler e nos entender.
      Seu escrito é uma aula. Grata.
      Tinha um professor na Artes Cênicas na Unicamp, que me escreveu sobre um trabalho: “você liquidificou demais, da próxima vez tente o mar”.
      Até hoje, em momentos trituradores e triturantes, ouço o vento.
      Beijo, vou compartilhar.

      • Maria Lucia Lee diz:

        Que bonito Mônica, “ouvir o vento em momentos trituradores e triturantes”, vou tentar fazer isso também.
        Abraço!

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