DAO DE JING XXXV

Maio 18th, 2012 § Deixe um Comentário

Veja artigo relacionado ao capítulo 35 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/05/18/os-sabores-do-dao/

OS SABORES DO DAO

Maio 18th, 2012 § 10 Comentários

Ver mais cor
Ação
De gosto superior
 
Foto-haicai: Michela Brígida

Quando eu era pequena, já morando aqui no Brasil, minha mãe cozinhava para a família a comida que a gente costumava comer lá na China. Não podia faltar arroz branco e uma sopa ao final da refeição. Cada um usava uma tigela de arroz e palitinhos. As “misturas” ficavam no centro da mesa, para que todos pudessem compartilhar.

Mas, aos sábados, a gente almoçava comida brasileira: arroz, feijão e bife. Cada qual com seu prato individual e usando garfo e faca, o que era uma coisa bem inusitada pra gente.

Até hoje, quando tenho oportunidade de cozinhar e comer a comida que minha mãe fazia, lembro da pequena China que era minha família aqui no Brasil, um refúgio em um ambiente estranho. São sabores que meus sentidos assimilam e me remetem a um gosto especial dentro do meu coração. O paladar faz apenas com que ele venha a tona.

Sinto que é como a mensagem que o capítulo de número 35 do Dao De Jing traz quando diz que “música e iguarias detém o viajante”. A comida proporciona um prazer para o corpo. Mas podemos ir além disso e chegar ao prazer do espírito, que não tem gosto: “o que sai da abertura do Dao não tem gosto! É sem sabor”.

O viajante descrito pelo autor pode ser eu ou você, que estamos na Terra de passagem. O corpo físico, que tem o prazer dos sentidos, é transitório. O espírito, abrigado no coração, não se detém.

Isso me faz refletir que, se conseguirmos sentir os sabores com mais qualidade através de nosso corpo físico, poderemos chegar a uma dimensão espiritual mais elevada.

De acordo com a Medicina Tradicional Chinesa (MTC), nossos sentidos estão localizados em aberturas superiores: boca, nariz, ouvidos, olhos e língua.

As pessoas normalmente acham que nariz, ouvido ou a boca, por exemplo, tem existência isolada. Pelo contrário. Cada abertura tem uma profundidade, pois está ligada a um Órgão interno correspondente.

Os olhos são a abertura do Fígado, Órgão que expande o qi (sopro vital), o sangue e as substâncias corporais. O movimento dele faz o qi e o sangue chegar até os olhos, o que permite a boa visão das cinco cores.

O nariz é a abertura do Pulmão. A função do Pulmão é condensar, purificar e disseminar o qi. Quando o Pulmão está harmonioso, permite ao nariz um bom funcionamento responsável pela plena percepção dos cheiros.

A boca e os lábios são as aberturas do Baço. As funções realizadas pelo Baço (de assimilação, transformação e ascensão da essência pura dos alimentos) manifestam-se nos lábios vermelhos e úmidos, bem como na boa função da boca para a degustação.

Os ouvidos são a abertura do Rim. Uma função harmoniosa desse Órgão (de armazenar a essência, controlar o desenvolvimento e o sistema reprodutivo) assegura um bom funcionamento do ouvido.

E o Coração se abre na língua, manifestando-se no brilho e rubor da face. Ele governa o Sangue e abriga o espírito. Se o qi do Coração está pleno, as palavras tem força e clareza. A face brilha e as aberturas dos sentidos que se localizam na cabeça também recebem o benefício do bom funcionamento do Coração.

Um bom funcionamento dos órgãos internos faz com que haja um bom funcionamento dos sentidos.

Mas o mau uso dos sentidos (quando os utilizamos muito, por exemplo), pode desgastar não só as aberturas dos sentidos, como desequilibrar os órgãos internos que lhes correspondem.

Quando uma pessoa fica muitas horas do dia em frente a TV ou trabalhando no computador, por exemplo, pode desgastar os olhos e também o Órgão do Fígado. Assim acontece também com o olhar apegado e com desejo, que desgasta e faz efluir o qi.

Os sentidos estão a serviço do Coração. É como se o Coração fosse o “dono da casa” na qual os sentidos são os “empregados”. Na presença do dono, os empregados fazem o seu trabalho na medida certa. Não exageram nem fazem a menos. Porém, na ausência do dono não há um comando, e os empregados tendem à competir entre si e se desgastam.

Por isso é importante sentir com o Coração, que é o governante, segundo a MTC.

Chegamos então a uma outra reflexão: o que é sentir com o Coração?

O Coração só sente verdadeiramente quando está em paz. Sem desejos, pensamentos obsessivos ou preocupações.

A medicina chinesa ensina que o Coração abriga o espírito e a nossa consciência. Por isso, quando o Coração está sereno, o nosso espírito e a nossa consciência tem clareza. E os sentidos são como janelas por onde as coisas chegam ao Coração e emanam dele.

Assim entendo a mensagem que o Dao De Jing traz, nesse capítulo, quando diz que “olhar não é o suficiente para vê-lo. Escutar não é o suficiente para ouvi-lo. Usar não é suficiente para esgotá-lo”.

Um Coração tranquilo é capaz de não se deter apenas nas percepções físicas dos sentidos. Em vez disso, vai além e percebe a realidade sutil que está nas brechas e interstícios da realidade concreta e visível.

Para sentirmos com o Coração, sinto que é preciso liga-lo a algo superior, à Grande Imagem de que fala o poema: “quando se apreende a Grande Imagem, tudo abaixo do céu segue. Segue e não perturba a grande paz”.

Para mim, essa Grande Imagem é o absoluto, que transcende as polaridades. Quando não existe divisão e não há diferenciação entre meu ser e a natureza.

“Só se vê bem com os olhos do coração”, disse o pequeno príncipe de Saint Exupery.

Isso me recorda uma frase de Helen Keller, que ficou cega e surda quando tinha um ano e sete meses: “as melhores e mais bonitas coisas no mundo não podem ser vistas, nem tocadas. Elas devem ser sentidas no coração”.

Veja a tradução livre do capítulo 35 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/05/18/dao-de-jing-xxxv/

DAO DE JING XXXIV

Maio 8th, 2012 § 1 Comentário

 

Veja artigo relacionado ao capítulo 34 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/05/08/o-sopro-do-dao/


O SOPRO DO DAO

Maio 8th, 2012 § 2 Comentários

Inspiração

Respiro…

Sinto a poesia do ar

Suspiro a lembrança

Que inspira

Eu vivo

Fotografia e poesia: Michela Brígida


Uma vez, li uma história zen em quadrinhos na qual um peixinho perguntava o que é o mar a um peixe mais antigo. “É tudo o que nos cerca”, respondia o mais velho.

Então um grande ponto de interrogação junto ao peixe pequeno mostrava que, embora ele estivesse totalmente imerso naquela imensidão azul, não conseguia enxergar o mar. “Porque não posso vê-lo?”, seguia, então, perguntando o peixinho.

Na tira seguinte, a história continuava com a imagem de uma criança que fazia as mesmas perguntas a um ancião. Mas em vez do mar, ela queria saber a respeito do Dao: “o que é o Dao?”. O ancião então respondia: “É tudo o que nos cerca”. E a mesma cara de dúvida se via também desenhada no rosto da criança: “porque não posso vê-lo”?

São importantes indagações cujas respostas busco desde a década de 70, época em que primeiro tomei contato com um exemplar do Dao De Jing (o título era ainda traduzido como Tao Te King no Ocidente).

Venho aprendendo que o Dao é o Caminho para o auto conhecimento e o estado virtuoso do ser. Ao longo dos 81 capítulos da obra, o autor nos orienta para o fato de que precisamos trabalhar para transcender nossas vibrações grosseiras e assim ascender a planos mais elevados e puros. Isso tudo me encantou desde o início. Por isso venho me perguntando como, afinal, integrar o Dao em minha vida cotidiana.

Hoje, depois de anos trabalhando com as práticas corporais chinesas, percebo que uma maneira de sentir o Dao, de que tanto nos fala Lao Zi no livro, é sentindo o sopro vital, chamado de “qi” na língua chinesa.

Para mim, o qi é o mensageiro do Dao no nível da vida na Terra. Ele envolve os homens como o mar envolve os peixes. Essa é uma boa imagem de comparação: como o mar, a tudo o qi permeia. Estamos imersos num “mar de qi”. Todos os seres dependem desse sopro vital para viver, como é dito a respeito do Dao no capítulo 34 do Dao De Jing: “Todos os seres dependem dele para viver. E ele não os abandona”. O grande Dao “está à esquerda e à direita”. Em todos os lados, portanto, exatamente como o qi.

No Ocidente, o qi foi nomeado como “energia”. Mas ele é muito mais do que mera energia. Para traduzi-lo, prefiro a ideia de ar em movimento, sopro, vento ou exalação. Essas palavras relacionam melhor o qi com a sua natureza etérea.

O qi circula em nosso corpo como o ar no universo. Não podemos ver o qi. Então como podemos percebê-lo? Sentindo as transformações que ele provoca.

Quando a gente sente dor, por exemplo, é porque o qi não está conseguindo fluir no local da dor devido a alguma obstrução. Por outro lado, se nos sentimos leves, é devido à presença do qi dissolvendo as estagnações. Da mesma forma acontece quando sentimos um calor, um refrescamento ou um intumescimento. Todas essas sensações acontecem devido à presença do qi em nosso corpo.

A respiração pode ser um grande auxílio para obtermos a senso percepção do qi. Ela traz a lembrança de si mesmo e faz a troca de nosso sopro interno com o grande qi da natureza.

Não é possível pensar na respiração a todo instante, mas aprendi a observa-la em situações desagradáveis ou adversas de medo, tristeza ou euforia. Nesses momentos, a nossa respiração se altera e tende a enfraquecer, sumir, interromper, dispersar ou acelerar, como um sinal de desorganização do qi interno.

Então, se me lembro de voltar a atenção para a respiração nesses momentos, tenho a possibilidade de manter a fruição dos sopros (qi) dentro de mim. Não é nenhuma técnica. É simplesmente cuidar em manter a respiração, sem interferir.

Cuidar, em chinês, significa “Coração pequeno” (xiao xin). Na Medicina Tradicional Chinesa, o Coração é o governante que se encarrega de tudo.

O pequeno gesto de cuidar da respiração vem do Coração que, em sua grandeza, se dispõe a “ficar pequeno” para focar a atenção a uma só coisa: a respiração. Mesmo assim, como um bom governante, ele não descuida do todo.

Lendo o capítulo 34 do Dao De Jing, entendo que podemos ser grande com um coração que se considera pequeno. O autor escreve: “sempre sem desejo, pode ser chamado pequeno. Todos os seres retornam a ele, que não se considera dono. Pode ser chamado grande, mas até o fim, não se considera como tal”.

Ao meu ver, essas qualidades do Grande Dao descritas no poema são também qualidades que um Coração pode ter unindo-se ao Dao.

É o Coração quem toma as rédeas do qi (sopro) para trilhar o caminho virtuoso do Dao. Nesse caminho, o sopro é como o cavalo de uma carruagem: precisa ser guiado pelo Coração. O Coração é como o cocheiro, que pode se unir ao Dao, o dono da carruagem.

Voltar a si mesmo para manter a respiração é retornar ao Coração, porque a qualidade dos sopros depende de um bom governante. Perceber a minha respiração é um pequeno gesto que reverbera em todo meu ser.

Veja a tradução livre do capítulo 34 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/05/08/dao-de-jing-xxxiv/

DAO DE JING XXXIII

Abril 26th, 2012 § 2 Comentários

Veja artigo relacionado ao capítulo 33 do Dao De Jing clicando aqui: https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/04/26/iluminareconhecer/

ILUMINAR E CONHECER

Abril 26th, 2012 § 9 Comentários

 

Ilumina
Mina a dor
O bom humor

 
Foto-haicai: Michela Brígida

Quando eu era mais jovem, um mestre do Dao me disse que não adiantava nada eu querer me iluminar meditando horas a fio. “Você quer se conhecer?”, ele me perguntou, “então viva os seus conflitos”.

Hoje entendo as suas palavras. Conflitos pequenos (como uma fechada no trânsito) ou maiores (como um término de relacionamento) podem trazer boas oportunidades para eu me observar em meu descontrole e, aos poucos, aprender a como me manter centrada.

Saber manter o centro e também a vitalidade é o verdadeiro se conhecer, na minha opinião. De acordo com o capítulo 33 do Dao De Jing, “iluminado é aquele que conhece a si próprio”.

Vendo dessa maneira, a iluminação deixa de ser uma “coisa do outro mundo”. Pode ser algo possível a pessoas mais simples como eu e você, desde que tenhamos a disposição de querer centrar, cada vez mais.

O centro energético do nosso corpo fica na região do umbigo. Os chineses o chamam de dan tian e os japoneses de hara. É nesse centro que a nossa estabilidade reside. Frente à uma situação desagradável ou de perigo, saber retornar a ele evita o descontrole para não reagirmos de forma inoportuna.

O centro tem a ver com a vitalidade. O órgão Baço e a víscera Estômago, localizados nessa região, exercem a importante função de assimilar os alimentos ingeridos. O Baço-Estômago produz e faz circular energia e sangue, que mantêm a vida no nosso corpo.

Então podemos interpretar, de acordo com o conhecimento que a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) nos traz, que o pleno funcionamento do Baço-Estômago pode auxiliar na iluminação do ser.

É que a energia, em seu nível mais alto de refinamento, é o qi (sopro vital) para os chineses. Na alquimia interna, essa energia é considerada o elemento celeste, de natureza yang, que ascende e brilha.

O sangue é o líquido orgânico em seu nível mais refinado. Na alquimia interna, o sangue é de natureza yin e leva a consciência por onde passa. Onde o sangue não chega, não chega a consciência.

Portanto, a energia (qi) e o sangue circulando sem obstáculos iluminam o corpo, tornando-o mais consciente.

Daí também podemos concluir que para se iluminar é importante ter um centro estável e vitalidade.

Por outro lado, é importante considerar o que afeta essa estabilidade do centro produzida pela função do Baço-Estômago. Na MTC, o excesso de pensamentos é a causa de desequilíbrios dessa ordem.

Tanto uma deficiência do Baço-Estômago pode causar preocupações compulsivas, como o hábito de se preocupar ou pensar muito também pode afetar o Baço-Estômago.

Por isso, em meio a situações difíceis, é preciso vencer o excesso de preocupações, sobrepujando os pensamentos negativos.

Sei que essa não é uma tarefa fácil. Por isso venho estudando o Dao De Jing. O capítulo 33, especificamente, me recorda da importância de me satisfazer comigo mesma, a cada momento.

Satisfeita, sem carências afetivas, não fico cobrando das pessoas atitudes que eu julgo serem as melhores. Apenas me relaciono com elas do jeito como estão podendo conviver comigo.

Da mesma maneira, sem carência de vitalidade, tenho menos pensamentos e preocupações e, portanto, mais bom humor. Consigo então retornar com facilidade ao meu próprio centro.

Se estou bem, não fico procurando coisas pra me satisfazer. Apenas sigo firme no meu caminho e propósito de vida. Com isso, tenho mais longevidade, porque não desperdiço a minha vitalidade com atividades inúteis.

Mais centrada em mim mesma, posso me afastar da negatividade e me aproximar da alegria pura que se encontra no meu Coração. Essa é a verdadeira riqueza pra mim. Como diz o Dao De Jing: “aquele que sabe ficar satisfeito é rico”.

Com mais alegria é bem mais fácil me ligar ao Coração dos outros. Além disso, quando estou alegre, consigo viver meus próprios conflitos transformando as situações de sofrimento com bom humor.

Uma pessoa centrada, que se conhece e se satisfaz com o que tem, vence e caminha firme com determinação. Onde quer que ela vá, leva consigo o seu centro. Por isso nunca perde o seu lugar.

Ela não perece, conforme diz o Dao De Jing, porque o espírito da alegria não morre. É como uma borboleta, que deixa o casulo. O corpo morre, mas o espírito permanece. Vive no coração das pessoas com quem compartilhamos nossa luz.

Veja a tradução livre do capítulo 33 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/04/26/dao-de-jing-xxxiii/

DAO DE JING XXXII

Abril 12th, 2012 § 2 Comentários

Veja artigo relacionado ao capítulo 32 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/04/12/saber-parar

SABER PARAR

Abril 12th, 2012 § 3 Comentários

 

Tempo

Para flor

E ser

Foto-haicai: Michela Brígida

Ninguém mais tem tempo para olhar uma flor, como uma vez disse a artista plástica norte-americana Georgia O’Keefe.

A agitação que sinto nas pessoas hoje em dia me lembra muito um dito popular chinês que define como é fazer muitas coisas ao mesmo tempo: “contemplar flores galopando a cavalo”.

Eu agia assim quando comecei a me dedicar às artes corporais chinesas na década de 80. Queria aprender tudo o que me aparecia pela frente. Treinava o Tai Ji Quan, o Bagua Quan, a Espada Simples e Dupla, Os Oito Brocados de Seda, o Sentar na Calma, a Circulação do Circuito Microcósmico e, como se isso não fosse o suficiente, acompanhava os médicos chineses para aprender acupuntura e massagem, entre outras coisas.

Naquela época, confundia as práticas, não conseguia enxerga-las com uma clareza necessária e sequer tinha tempo para me aprofundar nelas. Era como alguém que galopa rapidamente sem conseguir distinguir as flores do caminho.

Quando me dei conta de que estava sendo gananciosa, limitei  minhas atividades. Desde então, venho direcionando o foco do meu trabalho para a pesquisa e o ensino das artes corporais terapêuticas da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), que é o meu objetivo de vida.

Mas, mesmo considerando somente essa área de atuação, são inúmeras as técnicas que existem. Para estudar e divulgar um método, então, percebi que precisava antes me dedicar ao treinamento dele durante um tempo. Que apenas assim teria a percepção dos movimentos no meu corpo e saberia falar de sua essência com propriedade. Uma coisa de cada vez.

É preciso ter foco. Hoje, em meu treinamento individual, não faço todas as práticas que sei. Escolho as que são mais adequadas de acordo com a minha necessidade. Quando ela muda, eu mudo também os exercícios.

E para treinar junto aos grupos que oriento nos parques, escolho dois ou três métodos corporais da MTC conforme a estação do ano. Nesse caso, o foco é fazer uma atividade em harmonia com a natureza, que mantenha o equilíbrio e a vitalidade dos praticantes.

Assim procuro orientar meu trabalho em meio à grande profusão de métodos e técnicas corporais que existem.

No Ocidente, percebo uma tendência exagerada à criação desmedida de métodos e técnicas. Para mim, isso é motivado pela ganância de se querer mais e mais e provoca uma fragmentação das coisas em muitos nomes específicos.

A respeito disso, o capítulo 32 do Dao De Jing nos adverte que: “quando se começa a dar forma, surgem os nomes. Com os nomes, criam-se existências. Na plenitude da criação, deve-se saber parar. Saber parar evita o perigo”.

O perigo de não saber parar é chegar ao esgotamento e à desintegração, colocando em risco a saúde. Quanto mais coisas queremos fazer ou saber, mais acelerados ficamos internamente. Se não soubermos parar e limitar as nossas atividades, no que diz respeito à saúde, diversas doenças podem nos acometer.

A aceleração interna se caracteriza por um estado de excitação que provoca um aquecimento prejudicial ao organismo. Esse calor interno é chamado na MTC de “fogo falso” e é produzido pelo excesso de atividades, pensamentos e desejos.

Essa sobrecarga provoca uma disfunção do órgão Fígado (elemento madeira), que rege a vontade, e do órgão Coração (elemento Fogo), que rege os pensamentos.

O fogo falso provoca, principalmente, insônia e pesadelos, depressão, distúrbios de digestão, palpitação, ansiedade, entre outros sintomas. O prolongamento desses distúrbios pode gerar doenças mais graves.

O que fazer? Podemos escolher não participar dessa fragmentação vigente. Sair dela e saber parar. Limitar as nossas atividades, procurando ter foco e seletividade.

Além de se reduzir as atividades, devemos repousar, cuidar da alimentação e fazer exercícios apropriados.

Saber repousar não significa ficar muito tempo descansando. Dormir demais, por exemplo, pode desgastar o Qi (sopro vital) em vez de eliminar o cansaço. É importante saber, então, quais os momentos mais adequados do dia para repousar.

Pela MTC, a cada duas horas, a energia está passando por uma determinada víscera ou órgão. O horário da Vesícula Biliar, interligada ao Fígado, é das 23h à 1h da manhã. Para diminuir o excesso da função do Fígado (um dos causadores do “fogo falso”), portanto, é necessário procurar dormir antes das 23h.

O horário do Coração é entre 11h e 13h. Nesse período, para não sobrecarregar o Coração, é bom fechar os olhos e se recolher um pouco, nem que seja por alguns minutos. Podemos também tirar um rápido cochilo.

No horário das 17h às 19h, podemos fazer uma prática relaxante para fortalecer o Rim. Esse órgão, por ser do elemento água, pode auxiliar a refrescar o organismo.

Saber parar e retornar para si mesmo é seguir o Dao. Como diz o capítulo 32 do Dao De Jing, o Dao no mundo é igual às fontes dos vales que retornam para os rios e o mar.

Seguir o Dao é seguir a natureza. Acompanhar o ritmo dela, dormir quando se tem sono, comer quando se tem fome, como se diz também no zen budismo. Estando em sintonia com a natureza, fazemos o que tem de ser feito, nem a mais, nem a menos, apenas dentro de nossas possibilidades.

Isso parece simples, pequeno. Tão pequeno quanto uma flor. Ou como o Dao que, segundo o poema de número 32 “é simples e, embora pequeno, nada abaixo do Céu pode submetê-lo”.

Como disse Georgia O’Keeffe, que se dedicava a pintar pequenas flores, “se você pegar uma flor em sua mão e realmente olhar para ela, é seu mundo por um momento”.

Mantendo o Dao, seguindo a natureza sem ganância para com a vida, “o Céu e a Terra se unem para fazer cair um doce sereno”. E “o povo, sem que se dê ordens, por si mesmo se ordena”.

Para mim, isso quer dizer que somente dessa maneira o universo conspira a favor, ou seja, as coisas que a gente precisa chegam no tempo certo.

Veja a tradução livre do capítulo 32 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/04/12/dao-de-jing-xxxii/

DAO DE JING XXXI

Março 29th, 2012 § Deixe um Comentário

Veja artigo relacionado ao capítulo 31 do Dao De Jing clicando aqui:

http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/03/29/o-reino-do-coracao/

O REINO DO CORAÇÃO

Março 29th, 2012 § 7 Comentários

Antes que termine mais um dia, vem
Um pássaro claro
Lembrar que o escuro já vem chegar

Foto-haicai: Michela Brígida

“Onde nasce o Sol?”, uma amiga me perguntou há alguns dias, na sala do meu apartamento. Mas eu não soube responder… Daqui de casa, cercada por prédios, eu sequer vejo o horizonte. Tivesse perguntado a um chinês que vive na China, ela com certeza teria uma boa resposta. E de pronto.

Foi assim comigo nas viagens que fiz pra lá. Quando perguntava por algum endereço, via que os chineses têm um senso de direção, uma noção de leste-oeste e norte-sul que, em geral, não temos desenvolvida aqui no Ocidente. Não é nada extraordinário. Na verdade, é uma habilidade natural do ser humano em se localizar espacialmente, seguindo a natureza.

Na China, eles dizem “qi gan” para explicar quando uma pessoa sente o sopro (qi) no próprio corpo a ponto de ser possível uma ligação das direções internas desse sopro com as do grande sopro externo.

Isso me leva a pensar que, se perdemos o senso de direção no mundo externo, é porque perdemos antes a direção no espaço interno.

Por isso, a consciência dos pontos cardeais do planeta está presente nas práticas corporais chinesas. Para nos lembrar onde nasce o sol, onde é o leste, fora e dentro da gente.

Na China, o leste fica à esquerda. Uma pessoa de lá (ou de algum outro lugar do hemisfério norte) que segue o sol no céu (ou se posiciona de forma a ficar de frente para a Linha do Equador), verá que o sol nasce à sua esquerda e se põe à sua direita.

Por isso, nas práticas corporais chinesas, aprendemos que o primeiro passo do movimento começa sempre pelo lado esquerdo, que é a direção do nascente naquele hemisfério.

No Brasil (ou no hemisfério sul) é ao contrário. Ao seguir o sol, a pessoa verá que ele nasce à sua direita e se põe à sua esquerda, ou seja, aqui o leste fica à direita.

Os que fazem as práticas no hemisfério sul devem estar se perguntando agora: por que então no Ocidente a gente não começa a fazer as práticas pelo lado direito, que é onde o sol nasce aqui?

Porque a preferência dos chineses pela esquerda não se explica apenas pela orientação externa. Está dentro do corpo, onde também existe o lado do nascente (leste) e do poente (oeste), além, é claro, de um norte e um sul internos.

No mundo externo, cada uma dessas quatro direções corresponde a uma estação do ano. Onde o sol nasce, à leste, existe uma energia criativa yang muito forte. Por isso, na simbologia chinesa, a energia do leste é a primavera, a estação do nascimento dos seres. O oeste, por ser o lado do poente, representa a energia yin. Relaciona-se, portanto, com o outono, a estação do recolhimento. O norte (no hemisfério norte) corresponde ao inverno, que é o lado escuro. E o sul, o lado luminoso, corresponde ao verão.

Dentro da gente, por sermos um microcosmos, à semelhança do macrocosmos, a energia de cada estação do ano se relaciona com a função de um determinado órgão. Cada um dos cinco órgãos em que se baseia a fisiologia da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) vai nos orientar, portanto, a respeito de nossas direções internas.

A energia de criação da primavera (leste) corresponde ao Fígado, que é do elemento madeira. Simbolicamente, a madeira traz as características da árvore que nasce e se desdobra em direção ao Céu. Portanto, o Fígado promove a exuberância do crescimento.

A energia de amadurecimento e recolhimento do outono (oeste) se assemelha ao movimento do Pulmão. Esse órgão, do elemento metal, concentra as essências do Céu e da Terra (oxigênio e alimentos) e as difunde abaixo, para manter a vitalidade.

A energia de crescimento luxuriante do verão (sul) é associada à energia do Coração, do elemento fogo, que brilha e flameja num movimento ascendente em direção ao Céu.

E, finalmente, o inverno (norte), estação em que a energia se esconde na parte mais profunda da terra, corresponde à função do Rim, elemento Água, que desce para as profundezas do nosso corpo. O centro é o Baço, elemento terra, que integra todas essas estações.

Então, em cada região do corpo existe a energia de uma estação do ano: primavera à esquerda, verão acima, outono à direita e inverno abaixo. Todas as quatro estações circulam em torno de um centro que possibilita a transformação de uma estação em outra, de forma harmônica.

No aspecto energético, o leste fica à esquerda, onde está o nascente e é representado pela energia primaveril do Fígado. Embora o órgão físico fígado fique à direita, a energia dele ascende de forma proeminente pelo lado esquerdo. A energia outonal do Pulmão (elemento metal) desce pela direita em nosso corpo, e por isso é associada ao poente.

Assim se explica a preferência dos chineses de se começar as práticas corporais pelo lado criativo (yang), que fica à esquerda.

No capítulo 31 do Dao De Jing, vemos que o autor nos mostra que “ser um homem nobre é valorizar a esquerda”. E que “aqueles que usam os exércitos valorizam a direita”. Simbolicamente, na minha interpretação, valorizar a esquerda é colocar a energia da criação da primavera acima de tudo. E valorizar a direita significa priorizar o declínio do outono.

Na primavera, a energia criativa é farta. No outono, com a proximidade do inverno, os tempos começam a ficar mais escassos. O próprio elemento do outono, o metal, já traz a imagem do rigor.

É claro que não podemos interpretar o poema de forma a considerar o outono como algo nocivo. A energia do outono é igualmente necessária para a primavera existir e vice-versa, assim como é o equilíbrio do yin/yang.

Mas na época em que Lao Zi escreveu esse poema, quando existiam feudos na China em constantes guerras, o império estava totalmente fragmentado. Havia muita destruição e a energia do outono estava em excesso, desequilibrando a harmonia entre criação e destruição.

Os governantes dos feudos eram acompanhados por dois conselheiros: um à esquerda e outro à direita.

O conselheiro da esquerda tratava de assuntos favoráveis e o conselheiro da direita lidava com assuntos fúnebres. A escolha dessas posições (direita para assuntos fúnebres e esquerda para assuntos favoráveis) tem a ver com o que explicamos acima, a respeito das energias das direções.

Em épocas de guerra, o conselheiro da direita tinha papel mais importante do que o da esquerda. Mas quem decidia mesmo era sempre o homem nobre de quem fala o poema: o governante, que ocupa o lugar central.

Para ser um governante nobre é necessário estar consciente de que “vencer não é bonito”, como é dito nesse poema do Dao De Jing.

Um homem nobre age com serenidade e considera as falas, tanto do conselheiro da direita, quanto da esquerda. E decide por ações pacificadoras, que colocam “a paz e calma acima de tudo”, como também é dito pelo autor.

No âmbito interno, assim como temos as quatro direções, também temos um governante dentro da gente, que ocupa o lugar mais alto no nosso organismo e abriga a consciência. Na MTC, o Coração é considerado o imperador que governa as funções internas.

Com o Coração sereno, tudo pode ser ordenado e não há excesso ou escassez. Um excesso da energia criativa do Fígado pode, por exemplo, provocar um sentimento de excitação que favoreça a emoção da raiva. Mas se o Coração está tranquilo, o Fígado se acalma. O sentimento da raiva se transforma então em energia para o nascimento e desdobramento da vida.

Se um excesso da energia de condensação e recolhimento do Pulmão provoca um sentimento opressivo que favoreça a tristeza e o pesar, com um Coração alegre, o Pulmão logo se expande. O sentimento opressivo se transforma então na energia de amadurecimento e colheita da vida.

Conhecendo os sopros internos, tanto de pacificação como de criação ou destruição (e, principalmente, quando se consegue harmonizar esses sopros todos), teremos uma energia mais equilibrada para interagir com a natureza. Enquanto não se conhece a própria natureza interna, é muito mais difícil se orientar ou reconhecer as direções externas do mundo.

Sob esse ponto de vista, orientar-se no planeta depende, necessariamente, de autoconhecimento. Na minha opinião, de outra maneira não se consegue conhecer e vencer esse ambiente tão mutável em que vivemos.

Veja a tradução livre do capítulo 31 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/03/29/dao-de-jing-xxxi/

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