DAO DE JING XXX

Março 19th, 2012 § 1 Comentário

Veja artigo relacionado ao capítulo 30 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/03/19/o-segredo-da-forca-interna-2/

O SEGREDO DA FORÇA INTERNA

Março 19th, 2012 § 5 Comentários

Descido na terra
A força do sol
Com sigo

Foto-haicai: Michela Brígida

Meu pai era estrategista militar na China. Como parte de sua formação, estudou o livro A Arte da Guerra, um tratado militar conhecido no mundo inteiro e escrito no século IV a.C (acredita-se) por Sun Zi.

É uma obra ampla que surpreende pela atualidade. Mesmo depois de 25 séculos, vem sendo aplicada, hoje em dia, em diversas áreas e campos, como a economia, a administração de empresas, no esporte e, como não poderia deixar de ser, é claro, na Medicina Tradicional Chinesa. Os chineses foram, inclusive, os primeiros a adaptar A Arte da Guerra de Sun Zi aos conceitos da ciência médica.

De fato, o sistema de pensamento usado nas estratégias de guerra para se conquistar e proteger territórios é muito semelhante ao raciocínio usado em estratégias para se proteger os vários órgãos no corpo humano.

Um dos princípios que vemos em comum é a recomendação de se evitar o confronto direto com o adversário, ou seja, é melhor agir preventivamente para evitar o uso de métodos mais invasivos, como os remédios.

Devido à sua agressividade, os remédios seriam (na minha interpretação aplicada às práticas corporais) “a força militar” ou “a força dos soldados” de que fala o poema de número 30 do Dao Dejing quando diz: “quem segue o Dao para auxiliar no que decide, não usa a força dos soldados com assuntos abaixo do Céu”.

Os médicos chineses antigos colocavam as coisas na seguinte ordem: os remédios vem depois da alimentação e do repouso, e a alimentação e o repouso vem depois do exercício.

Ao longo de sua história, o povo chinês aprendeu a agir assim. Na luta para conquistar a saúde, os exercícios são considerados uma medicina de alto nível.

Alto nível é uma designação dada aos médicos que não deixam a pessoa adoecer. Os de nível médio começam a tratar o paciente quando a doença já se manifestou. E os comuns tratam a doença quando ela já se instalou por completo. Os médicos de alto nível mobilizam a força do bem para regular não só o corpo, como também as emoções e a mente.

Entendo essa força do bem como a força interna. No poema 30 do Dao Dejing relaciono-a como sendo o fruto da bondade de que fala o trecho: “A bondade dá o fruto, não ousa tomá-lo pela força”.

Aqui no Ocidente, pouco se sabe ou fala de força interna. Valoriza-se muito a força física. E isso eu entendi na prática.

Como já contei antes, vim para o Brasil aos dois anos de idade. A força física nunca foi o meu forte. Em geral, a força muscular não é característica da raça oriental. Mesmo assim, eu bem que tentei desenvolvê-la quando era mais jovem, praticando atletismo, corrida e salto em altura.

Ficava exausta… Parecia que o propósito de somente competir me exauria mais até do que o próprio esforço físico. Anos mais tarde, praticando Tai Ji Quan, eu vim compreender o porquê: dentro da gente, além da força muscular, existe também a força interna, que precisa de uma intenção pura para acontecer.

A força interna é gerada quando essa intenção pura a requisita e a direciona. Em chinês, o ideograma intenção é formado pelos radicais som e coração, isto é, o som do coração.

E o princípio das artes corporais chinesas diz que a intenção lidera o qi (sopro), que este dá origem à força interna, e que a força interna alcança as extremidades.

A força interna, quando utilizada, não se desgasta. Ela se fortalece, vem da consciência e tem duração no tempo. A força interna preside a força física muscular, que age dando suporte para que ela possa circular plenamente.

Se a força física é utilizada sem a força interna, o efeito do seu poder termina quando os músculos, tendões e ossos declinam. Por ser uma força mecânica, ela desgasta a energia, fazendo o corpo envelhecer mais rápido. É o que diz o trecho “os que usam a força envelhecem” no Dao Dejing.

Por isso eu faço as práticas corporais chinesas e procuro não me descuidar de minha vitalidade física, do meu equilíbrio emocional e da minha serenidade espiritual. O que vejo de melhor nisso tudo é que esses recursos estão dentro de mim e podem ser feitos a qualquer momento.

Na semana passada completei 63 anos de vida. Pode até parecer contraditório aos que não sabem da força interna, mas o fato é que me sinto melhor agora do que quando era mais moça. Não é que tenha mais vitalidade. Sei que a vitalidade está diminuindo com o passar dos anos. Mas é que hoje utilizo melhor a minha força interna. Além disso, a vida vem me ensinando a ter mais amor e benevolência, a não perseguir a fama e a riqueza, o que aumenta a minha força interna.

A força interna é o fruto da bondade que se expande como a madeira da árvore em direção ao Céu, seguindo o Dao naturalmente.

Veja a tradução livre do capítulo 30 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/03/19/dao-de-jing-xxx/

DAO DE JING XXIX

Março 9th, 2012 § 1 Comentário

Veja artigo relacionado ao capítulo 29 do Dao De Jing clicando aqui: https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/03/09/com-viver-sem-posse/

COM VIVER SEM POSSE

Março 9th, 2012 § 16 Comentários

 
Aceita 
A ação
Da vida
 
Foto: Haicai: Michela Brígida

Não sou mestre. Em minha trajetória com as práticas corporais chinesas, nunca achei importante ser chamada assim. Um título de mestre, como é concebido hoje em dia, coloca seu detentor como se fosse o “dono do conhecimento”.

Mas a própria concepção de mutação, que permeia todo o pensamento oriental, deixa claro que não é possível possuir as coisas. Nem o conhecimento ou tampouco o próprio destino. No que diz respeito ao meu, o sentimento de que tudo muda veio desde muito cedo, junto à história de minha família.

Quando nasci, a China passava por uma grande transformação. O exército nacionalista estava sendo derrotado pelos comunistas em 1949. Meu pai era um general do governo naquela época. Por isso, minha mãe, que aguardava o meu nascimento, teve que fugir da China para Taiwan.

Foi lá que cheguei ao mundo, no exato momento em estávamos exilados de nossa própria terra natal. Meu pai me deu o nome de Man Han, que quer dizer Jornada Harmoniosa em português. Era a expressão do desejo de uma jornada harmoniosa neste caminho desconhecido que se apresentava.

Quando estava com dois anos, meus pais, cansados de guerras, vieram para o Brasil trazendo toda a família. E tudo foi deixado de novo para trás para recomeçarmos nossa história em uma nova pátria.

Aqui, por vezes tentei planejar meu futuro. Pensava em me especializar no exterior depois que me graduasse em Física. No entanto, a vida me impeliu a trabalhar como analista de sistemas para auxiliar no orçamento de casa.

Quando finalmente pude retomar os meus planos, minha mãe adoeceu. Tive então que cuidar dela durante três anos. Naquela época, ao me ocupar das tarefas impostas pela vida, não me parecia que estava seguindo o meu destino. Mas hoje eu entendo que era o caminho que me correspondia. Que a vida me conduziu naturalmente para que evoluísse de forma abrangente.

A análise de sistemas me colocou em contato com a tecnologia e a teoria geral de sistemas, que tem relação com o pensamento chinês, holístico e objetivo por sua natureza. A doença de minha mãe me fez refletir sobre a relatividade que existe entre doença e cura; que a doença pode ser um processo de cura. E tudo isso que vivi foi valioso para o meu ofício atual de professora de artes corporais terapêuticas da Medicina Tradicional Chinesa.

Por isso, para mim, a vida é o maior mestre. Ela vai nos colocando em nosso destino e nos orientando para a luz. Apresentando certas responsabilidades e problemas que temos de enfrentar.

Das coisas mais valiosas que aprendi, não tenho certificado. Meus certificados são apenas letras que já não refletem mais o que sou. Fico triste quando, nos cursos que ofereço, percebo às vezes que há maior interesse no certificado do que no próprio conteúdo, como se a simples posse de um papel trouxesse junto o conhecimento.

Como então aceitar um título que me coloca como detentora de conhecimento?  A partir do momento em que “desejo possuir o que está abaixo do Céu”, como diz o Dao Dejing no capítulo 29, eu perco a minha liberdade de continuar evoluindo, de me colocar no lugar de aprendiz, inspirando-me, como exemplo, em outras pessoas.

Se me apodero do título de mestre, eu me aprisiono. A pessoa que age assim não se permite mudar de opinião, como se o conhecimento que acredita possuir fosse resposta para tudo. E, dessa maneira, perde a liberdade para agir conforme a vida indica, já que as coisas mudam a cada momento, como o princípio que fundamenta o yin/yang.

O poema nos mostra essa mutação com as imagens: “os homens e as coisas ou caminham ou seguem, ou suspiram ou assopram, ou tomam ou ganham, ou constroem ou dissolvem”.

Por isso, em vez de mestre “dona do conhecimento”, considero-me uma facilitadora ou guia, orientando os que desejam saber a respeito dos caminhos que percorri para chegar a um saber. Procuro expressar com honestidade e sinceridade o que realmente sou. Nem a mais, nem a menos. Para isso, venho seguindo a orientação do Dao Dejing no sentido de eliminar “o excesso, a extravagância e a condescendência”.

Ser naturalmente o que se é, sem querer nada além disso, não é fácil. Como uma vez disse Bruce Lee em entrevista, “expressar-se com honestidade, sem mentir a si próprio, e [conseguir] expressar-se desse modo, meu amigo, é algo muito difícil”. É preciso auto conhecimento e desprendimento. Até mesmo de técnicas ou métodos espirituais (os instrumentos do sagrado abaixo do Céu, de que fala o poema), que também podem estar somente a serviço do ego, se a pessoa se apega a eles.

A luz não está fora. Deve nascer dentro de cada um. Mas não podemos possuí-la. Ela não nos pertence. Pode apenas nos ser revelada, assim como acontece no céu quando as nuvens se afastam, revelando a luz do sol.

Veja a tradução livre do capítulo 29 do Dao De Jing clicando aqui: https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/03/09/dao-de-jing-xxix/

Veja entrevista com Bruce Lee no link: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=R-cbLpuiAtA#!

DAO DE JING XXVIII

Fevereiro 25th, 2012 § Deixe um Comentário

Veja artigo relacionado ao capítulo 28 do Dao De Jing clicando aqui: https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/25/mestre-simples-mente/


MESTRE, SIMPLES MENTE

Fevereiro 25th, 2012 § 4 Comentários

Com seguir
Ser constante
Um instante a cada momento

foto-haicai: Michela Brígida

Comecei pelo mais difícil na minha vida com as práticas chinesas. Aprendi e ensinei artes sofisticadas como o Taiji Quan, Espada Taiji e Bagua Quan. Até que minhas reflexões começaram a me guiar para exercícios bem mais simples da Medicina Tradicional Chinesa.

Eu estava insatisfeita com os métodos de ensino das artes corporais chinesas no Brasil quando resolvi me dedicar a essa área. Via que eram praticadas, ou como algo exótico, ou com base na imitação. Conseguia perceber isso por ter as duas culturas dentro de mim, ou seja, por ser chinesa e ter crescido aqui.

Além disso, na década de 70, com a abertura política da China, pude fazer algumas viagens para o meu país de origem. Em uma dessas ocasiões, no ano de 1995, aconteceu algo que me motivou nessa passagem do complexo para o mais simples.

Eu tinha levado um grupo de praticantes de Taiji Quan para visitar a Montanha Wudang, na província de Hubei, à noroeste da China. Essa montanha é muito importante para os praticantes de Taiji Quan por ter sido o local onde o monge Zhang Sanfeng viveu como eremita até criar essa arte marcial.

Nosso grupo tinha ido visitar a Escola Tradicional de Artes Marciais de Wudang (Wudang Taoist Traditional Gong Fu Academy) que, naquela época, formava jovens chineses selecionados de todo país.

No pátio da escola, os alunos treinavam exercícios da arte guerreira (Wu Shu) Wudang sob o olhar atento de seu professor, um monge daoísta vestido com uma túnica típica e de coque no alto da cabeça.

Eu apresentei nosso grupo, dizendo que éramos praticantes de Taiji Quan no Brasil, e depois perguntei se ele ensinava essa arte em Wudang. “Não”, ele me respondeu. E com toda a sua sinceridade, continuou: “Ainda não tenho condições, porque o Taiji Quan é um Qigong de alto nível”.

Foi importante ter ouvido isso. Aquele professor chinês, cuja simples presença impunha respeito, ainda não ousava ensinar o Taiji Quan. A gente, por ignorância, ainda não entendia o valor dessa arte, e seguia fazendo os movimentos sem essa consciência.

Então ficou mais evidente pra mim a necessidade que temos aqui no Brasil de nos aprofundar e entender mais do pensamento chinês. Isso me fez enxergar, com mais clareza, algo que já sabia no meu íntimo: não se pode tratar uma arte profunda de maneira superficial.

Na China, os orientais tem suas vidas cotidianas permeadas pela filosofia da Medicina Tradicional Chinesa, pelos fundamentos do yin/yang. As pessoas são mais introspectivas e, nesse sentido, tem um conhecimento mais profundo do mundo energético interno.

No Ocidente, pela falta dessa base cultural, os movimentos ficam mais complexos. Devido à forma como são ensinados, tornam-se complicados de aprender. Aqui é preciso preparar o terreno antes de semear uma semente que vem de terras tão distantes.

Além disso, o brasileiro é muito extrovertido, voltado para fora. Antes de tudo, ele precisa conhecer mais de seu mundo interior.

Com base nessas reflexões, conclui que o caminho para o aprendizado das práticas corporais chinesas no Ocidente deve ser feito de fora para dentro. Para aprender a respeito da força vital interna, por exemplo, é preciso que ela seja primeiro sentida ao nível dos músculos, tendões e ossos, em exercícios mais específicos. O Liangong em 18 Terapias, uma prática corporal da área da ortopedia da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) permite fazer esse trabalho com objetividade.

Obtendo a sensação no corpo físico, a pessoa pode reconhecer a força interior. E a partir dessa percepção, poderá depois fazer qualquer prática chinesa, inclusive as mais complexas, obtendo resultados benéficos. Porque já estará conseguindo sentir a força interna em seu centro com mais facilidade.

Por isso, desde a minha primeira viagem para a China, comecei a direcionar o meu trabalho para as artes corporais terapêuticas da MTC (como as percussões e massagens corporais, as 18 Terapias, o Xianggong/Treinamento Perfumado, entre outras).

Por serem mais simples na execução e mais objetivas para se conseguir resultados específicos, elas são mais adequadas para auxiliar no entendimento do pensamento abrangente chinês.

O simples nos conduz ao conhecimento. Tanto nas práticas corporais, quanto na vida. Não adianta querer dar voos muito altos sem ter feito as coisas simples primeiro. E constantemente.

Assim entendo o 28º capítulo do Dao Dejing, quando nos mostra que “o grande carpinteiro pouco talha a madeira bruta”. Vejo que o esforço constante para se chegar à simplicidade é uma virtude que podemos reconhecer em um grande artista ou em um verdadeiro líder. As três primeiras partes do poema enfatizam a importância de ser simples, de retornar a ser criança, ao Supremo Vazio e à simplicidade da madeira bruta.

O autor nos explica que, para se chegar a essa simplicidade, precisamos ter a prática de conhecer e resguardar o yin e o yang, em seus vários aspectos (a impetuosidade do macho e a receptividade da fêmea, o branco e o escuro dentro de si, a glória e a humildade).

Se a gente tiver humildade para executar o simples, simplesmente, em passos simples, e se a gente tiver constância nisso, vai penetrar nos mistérios do yin/yang. Vai nos ser dado um conhecimento profundo. Porque através de um movimento simples, pode-se chegar a ter o controle de todo o nosso corpo.

O simples é raiz do complexo. Quanto mais profundamente se chega, mais simples vemos que as coisas são. E quanto mais superficial, mais complicado parece que é.

Fazer o simples de forma profunda é resultado de um longo esforço, como pude constatar com minha própria vida. Mas depois, até mesmo as coisas mais complexas podem ser realizadas de forma natural. E simples.

Veja a tradução livre do capítulo 28 do Dao De Jing clicando aqui: https://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/25/dao-de-jing-xxviii/

Veja o site da Wudang Daoist Traditional Internal Kung Fu Academy aqui: http://www.wudanggongfu.com/

Veja as práticas da MTC divulgadas por Maria Lucia Lee: http://www.youtube.com/user/Mansan49

Veja auto massagem matinal: http://www.youtube.com/watch?v=6QIPguD-V-g

PALESTRA ABERTA COM MARIA LUCIA LEE EM SJC

Fevereiro 23rd, 2012 § Deixe um Comentário

LANÇAMENTO DO CURSO LIVRE DE FORMAÇÃO DE LIANGONG EM 18 TERAPIAS ANTERIOR E POSTERIOR

Apresentação da origem, desenvolvimento e objetivos do Liangong em 18 Terapias.

Liangong em 18 Terapias é um método corporal desenvolvido e divulgado na década de 70 pelo Dr. Zhuang Yuanming, médico ortopedista de Shangai, China.

Por seu trabalho, o Dr. Zhuang recebeu do governo chinês o prêmio de “Progresso Científico”. Com isso, as 18 Terapias foram amplamente divulgadas para a população chinesa devido aos benefícios resultantes de sua prática.

TEMA: ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DAS 18 TERAPIAS

DIA 03 DE MARÇO DE 2012
Horário: 9h às 11h
Local: Hotel Mercure
Av. Dr. Jorge Zarur, 81, Jd. Apollo – S.J.Campos -SP

CURSO LIVRE DE FORMAÇÃO DE LIANGONG EM 18 TERAPIAS

Período: Março à Outubro de 2012
Carga horária total: 64 horas

Maiores informações e inscrições:
www.viacincosjc.com.br

(12) 3033-4299 / 7819-6672

GUERREIRO DO SÉCULO XXI

Fevereiro 16th, 2012 § 8 Comentários

 
 
Vivo
A colher, a guardar ser
Vivo
 
foto-haicai: Michela Brígida

“Viver é perigoso, mas necessário”, disse o brasileiro Guimarães Rosa. Para os chineses, viver é uma eterna luta do yin/yang, também necessária. A vida é uma batalha. E o homem comum pode ser um guerreiro do nosso século.

Grandes guerreiros da história chinesa eram heróis que se destacavam por defender o povo de injustiças e invasões. Muitas vezes, esses cavaleiros andantes eram anônimos ou então conhecidos por diferentes nomes, cada um atribuído conforme uma determinada situação ou local. Eram temidos pelos opressores e amados pelo povo. Uma vez restaurada a paz, prosseguiam em suas jornadas, sem deixar rastros, apenas notícias de seus feitos.

Os inimigos dos guerreiros de antigamente eram visíveis na época dos bárbaros, invasores ou tiranos. Hoje a luta do guerreiro do século XXI acontece em outro nível. Mas desde o tempo em que era preciso ser forte muscularmente para conseguir vestir uma armadura, a luta do guerreiro sempre foi a de encontrar uma grande paz.

Paradoxalmente, as palavras wu shu (artes guerreiras) significam chegar à grande paz por meio da luta. Wu, que tem o significado de guerreiro, é composto pelos ideogramas “parar” e “arma”. E shu quer dizer “arte”. A arte guerreira é, portanto, a estratégia e o poder pessoal para se vencer uma batalha sem se usar armas. Ou fazendo com que o oponente deponha as dele.

Atingir a grande paz é compreender a luta do yin/yang, que não é um combate. É uma interação de opostos.

Foi o que enxergou o monge taoísta Zhang Sanfeng no século XII. A lenda diz que ele era um desses grandes guerreiros que viajava por toda a China e que decidiu, aos 67 anos, recolher-se na montanha Wudan para meditar.

Estava na quietude da montanha, em um crepúsculo, quando uma luta entre uma serpente e um pássaro o despertou de sua meditação. Ele viu a luta se transformando numa dança: na serpente, a firmeza do bote nascia da maleabilidade em se esquivar das investidas do pássaro; a força interna das bicadas da ave, por sua vez, nascia de rodopios para evitar o bote do réptil.

Ao final, ninguém saiu vencedor. A serpente deslizou para as pedras e o pássaro voou para o céu. Mas a visão daquela cena fez com que Zhang Sanfeng criasse o Taiji Quan, uma luta sem luta.

O princípio básico é a formação de um taiji (o símbolo da união do yin/yang) com a força do oponente. Se um dá um passo para a frente (avançando, por exemplo), o outro recua no movimento inverso e complementar. Porque se os dois avançarem ao mesmo tempo, configura-se um embate.

Com o domínio de si e de seu centro, um lutador de Taiji Quan acolhe a força do golpe que vem em sua direção e a desagrega, desmanchando o golpe. Esse é o grande segredo. Não combater o adversário, mas sim anular a agressividade dele, fazendo-a cair no vazio. O objetivo é transformar e se harmonizar com o oponente, tornando-se, dessa forma, invencível, pois não há luta. Consequentemente, não há vencedores e nem vencidos. Os dois ganham.

Abrangendo tudo, o lutador acolhe todas as forças e se torna “um” com essas forças. Olha para elas com amor. É como diz o capítulo XXVII do Dao Dejing: “salva os homens sem rejeitar ninguém. Sempre bom, resgata as coisas sem nada descartar”.

Essa harmonia gera um desenrolar de movimentos circulares, que não se rompe nem se desagrega. É como o “bom fechamento”, que “não tem trancas e não é possível abrir”, de que fala o Dao Dejing também nesse capítulo XXVII. Forma-se então uma zona de proteção ao redor do corpo que golpes externos não conseguem penetrar.

O Taiji Quan é considerada uma arte guerreira da escola interna (neijia, em chinês), que dedica-se ao treinamento de compreender e desenvolver a força interna dos praticantes. Não se treina a agressividade e nem se privilegia a força física. O mais importante é vencer a si mesmo e cultivar a intenção do coração.

A escola neijia se contrapõe à escola waijia (externa), cuja arte mais conhecida é o Gong Fu Shaolin, desenvolvido pelo monge budista Bodhidharma no final do século VI. O Gong Fu Shaolin, comparado ao Taiji Quan, é um treinamento mais externo, com foco na luta contra um adversário exterior. Acontece um combate mesmo, em que um vence e o outro é vencido.

No meu entendimento, não é por um acaso que o Taiji Quan surgiu séculos depois da criação do Gong Fu Shaolin. O Taiji Quan foi desenvolvido numa época em que já era necessário um “exorcismo” para males não visíveis. E os inimigos não eram mais somente os bárbaros com suas armas materiais: eram também invisíveis e sutis, como os maus pensamentos e as neuroses que começavam a se espreitar em locais escuros e internos do ser humano contemporâneo.

Nesse sentido, o Taiji Quan é a arte marcial adequada para as lutas dos dias de hoje, pois um guerreiro do século XXI, assim como um bom lutador de Taiji Quan, não deve ter a preocupação de vencer um adversário. Ele deve, sim, vencer o próprio ego, mantendo o coração vazio de raiva e de outras forças negativas. Não deve enxergar o oponente como um inimigo, mas sim  como alguém a quem deve compreender, sem julgar, para depois interagir com ele (porque ao julgá-lo, já terá perdido a luta).

Um guerreiro do século XXI não rejeita aquele que não é bom, pois sabe que o que não é bom pode ser matéria-prima para seu aperfeiçoamento. Assim sendo, uma pessoa ou situação que, aparentemente é adversa, pode desenvolver habilidades na vida do guerreiro do século XXI que ele não conseguiria desenvolver de outra maneira. A paciência ou o domínio da raiva, por exemplo. Uma pessoa pode aprender muito mais (a se melhorar, por exemplo) com uma situação adversa do que com uma vida de “mar de rosas”. Assim entendo a citação do poema 27 do Dao Dejing: “aquele que é bom é mestre para aquele que não é bondoso. E o que não é bom é matéria prima daquele que é”.

Sem combater a ninguém, com o coração tranquilo, o guerreiro do século XXI pode superar os perigos e os oponentes. Essa é a essência da luta que leva à não luta, que leva à grande paz.

Como diz o poeta Laozi, a isso se chama “herdar a luz”.

Veja a tradução livre do capítulo 27 do Dao De Jing clicando aqui: http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/16/dao-de-jing-xxvii/


DAO DE JING XXVII

Fevereiro 16th, 2012 § Deixe um Comentário

 

Veja artigo relacionado ao capítulo 27 do Dao De Jing clicando aqui:

http://diariodepraticascorporais.wordpress.com/2012/02/16/guerreiro-do-seculo-xxi/

CURSO DE FORMAÇÃO

Fevereiro 3rd, 2012 § Deixe um Comentário

Para os que sempre me perguntam quando vou oferecer um curso ou para os que tem interesse em aprender as artes corporais chinesas, uma informação:
 
Eu e minhas sócias de São José dos Campos realizaremos um curso de formação de Liangong em 18 Terapias a partir do dia 10 de março.
 
Vejam as informações abaixo.

O Curso de Formação elaborado pela Via Cinco SJC atende aos critérios estabelecidos pelo sistema de avaliação da Associação de Liangong em 18 Terapias de Shangai, R.P. China e visa formar instrutores dentro dos padrões internacionais exigidos.

Período: Março à Outubro de 2012
Carga horária total: 64 horas

Outras informações e inscrições:
www.viacincosjc.com.br

(12) 3033-4299 / 7819-6672

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